Uma operação do Ministério Público de São Paulo prendeu nesta quinta-feira (3) André Weiss, que até maio ocupava um dos cargos mais importantes da Secretaria da Fazenda e Planejamento no governo Tarcísio de Freitas, e o advogado João André Buttini de Moraes, apontado pelos investigadores como responsável pelo núcleo privado de um esquema de corrupção envolvendo créditos tributários.
Weiss exercia a função de diretor-geral executivo da Administração Tributária e estava abaixo apenas do subsecretário da Receita Estadual e do secretário da Fazenda na estrutura da área tributária paulista. Sua prisão coloca a investigação diretamente sobre um servidor que integrou a cúpula da Fazenda durante a atual administração estadual, embora não exista, até o momento, indicação de envolvimento pessoal do governador Tarcísio de Freitas nos fatos investigados.
Segundo o Ministério Público, Buttini atuava na aproximação entre empresas interessadas na recuperação de créditos fiscais e integrantes da administração tributária capazes de acelerar, centralizar ou favorecer procedimentos de ressarcimento de ICMS.
Outro ex-dirigente da Fazenda, Vitor Manuel dos Santos Alves Jr., também foi alvo de buscas em casa e no escritório, mas não foi preso. Ao todo, foram cumpridos mandados em 47 endereços de São Paulo, da Região Metropolitana, do interior e de Mato Grosso do Sul.
Parte central da investigação está apoiada na colaboração premiada de Paulo Sérgio Siqueira Prado, ex-delegado regional tributário do Butantã, que admitiu ter recebido dinheiro para interferir na tramitação de pedidos de ressarcimento.
De acordo com o relato do colaborador, Buttini teria repassado cerca de R$ 13,6 milhões entre 2021 e agosto de 2025 para obtenção de facilidades administrativas, e aproximadamente R$ 4,5 milhões desse montante teriam sido destinados a Weiss, com entregas em espécie realizadas principalmente em restaurantes da região de Pinheiros.
Os fatos sob investigação atravessam mais de uma administração estadual, mas alcançam diretamente o período do governo Tarcísio, iniciado em janeiro de 2023, quando Weiss permaneceu em posição de comando dentro da máquina fazendária até deixar o posto em maio deste ano.
O Ministério Público investiga suspeitas de organização criminosa, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro relacionadas ao ressarcimento de ICMS recolhido por substituição tributária e ao aproveitamento de créditos acumulados.
A suspeita é de que procedimentos legais de recuperação tributária tenham sido convertidos em um sistema de cobrança de vantagens indevidas, com percentuais que variavam de 1% a 10% sobre os créditosmmm envolvidos.
Na estrutura descrita pelos investigadores, profissionais do setor privado buscavam grandes contribuintes e negociavam facilidades, enquanto servidores públicos atuavam internamente para acelerar ou favorecer a liberação dos valores.
A investigação afirma que o esquema atingiu diferentes níveis da administração tributária, chegando aos escalões superiores da Secretaria da Fazenda.
A operação desta quinta-feira também determinou o afastamento cautelar de seis servidores. Os 27 investigados ficaram proibidos de manter contato entre si e deverão entregar seus passaportes.
O episódio amplia a pressão sobre a administração Tarcísio por envolver um ex-integrante do alto escalão técnico de uma das secretarias mais importantes do Estado, responsável pela arrecadação paulista e pela administração de bilhões de reais em tributos.
Desde a primeira fase da Operação Ícaro, deflagrada em agosto de 2025, porém, a Secretaria da Fazenda afirma colaborar com o Ministério Público e sustenta ter adotado medidas internas para afastar e punir suspeitos.
Segundo a pasta, cinco servidores foram demitidos, um foi exonerado e outros 17 foram afastados sem remuneração desde o início das apurações. O governo afirma ainda que procedimentos fiscais relacionados às empresas investigadas produziram mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros.
A prisão de Weiss, entretanto, leva a investigação para dentro da antiga cúpula tributária do governo paulista e transforma o caso em mais um problema político para Tarcísio em pleno ano eleitoral, especialmente porque um dos principais investigados permaneceu em posição estratégica da Fazenda durante mais de três anos de sua administração.
Essa versão faz a conexão política sem afirmar responsabilidade de Tarcísio por condutas que, até aqui, são atribuídas aos investigados.

