São José dos Campos completou 258 anos como quem olha para o espelho e vê, ao mesmo tempo, o menino descalço da roça e o engenheiro que constrói satélites. Poucas cidades carregam essa simbiose de forma tão visível — a terra batida que virou pista de decolagem, a colheita que se fez indústria, o vale que se fez Vale.
Hoje, no Parque da Cidade, essa história se abriu em acordes. A Orquestra Joseense, conduzida com maestria e emoção, juntou-se à voz eterna de Renato Teixeira para nos lembrar que a modernidade também se curva diante da memória. Quando ele cantou “Tocando em Frente”, algo se rompeu ali naquele exato minuto dentro de nós — ou, talvez, algo se abriu. Eu fechei os olhos e chorei. E tenho certeza que não fui o único. Era impossível não sentir aquela onda que vem de longe, misturando passado, presente e futuro numa só vibração.
Renato Teixeira, filho de uma terra onde a canção é raiz e horizonte, parecia dizer: “Olhem para trás, agradeçam; olhem para a frente, sigam”. E São José, com seus 258 anos, faz exatamente isso. Uma cidade que nasceu com cheiro de café e suor de lavradores, que hoje projeta foguetes, lidera tecnologias, pensa em inteligência artificial, cidades inteligentes, sustentabilidade. E tudo isso sem perder a ternura das suas esquinas antigas, das casas com quintal na zona norte, dos encontros em volta de uma viola.
No Parque da Cidade, nesta noite cada pessoa era um pedaço dessa história. Havia algo de mágico — um encontro raro entre tradição e futuro. Entre o som das cordas da orquestra e a memória dos carros de boi que um dia cortaram esse chão. Entre a cidade tecnológica e o chão vermelho da roça. Tudo convivendo, tudo pulsando.
São José dos Campos é resiliente. Caiu e se levantou muitas vezes: crises econômicas, enchentes, pandemias. Mas, como diz a canção, “cada um de nós compõe a sua história” — e a cidade compôs a sua, feita de coragem e reinvenção. Hoje, quando se fala em sustentabilidade, não é apenas plantar árvores. É plantar ideias, é cultivar sonhos para os próximos 258 anos. É criar um lugar onde tecnologia e natureza andem de mãos dadas, onde progresso não signifique apagar as pegadas do passado.
Naquele momento em que “Tocando em Frente” ecoou no ar, ficou claro que São José não é só cidade: é sentimento coletivo. É a mistura do engenheiro que testa um motor de foguete com a avó que ainda faz pão de queijo no forno à lenha. É um futuro que não renega sua origem. Um lugar onde cada pessoa pode ser parte da orquestra, porque cada gesto de cuidado e amor por essa terra é uma nota na sinfonia maior.
Hoje, eu vi São José dos Campos cantar para si mesma. Vi uma cidade inteira se abraçar no Parque da Cidade, com olhos marejados e coração aberto. E entendi que o maior presente de aniversário é esse: saber que, mesmo diante do futuro veloz e tecnológico, ainda somos capazes de parar, ouvir e nos emocionar.
Parabéns, São José. Continue tocando em frente.
Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Cidadão honorário joseense e apaixonado por sua cidade.