Não participei da decisão da Academia Joseense de Letras de se ausentar da Flim 2025. E não por descuido, mas por convicção. Há meses, não integro o grupo de mensagens onde se tomam essas deliberações: um afastamento que diz menos sobre distância e mais sobre desalento. Desalento diante da vaidade que, pouco a pouco, vem substituindo o espírito público da instituição.
A literatura nasce do espanto, da dúvida, da coragem de dizer. Quando uma Academia de Letras se deixa guiar pela vaidade ou pelo ressentimento, perde o que tem de mais essencial: o compromisso com a palavra. A vaidade é sempre a primeira queda e, quando ela se instala, a razão se esvai.
O desconvite à jornalista Milly Lacombe foi um erro. Um erro grave. A literatura não precisa concordar com todas as vozes, precisa apenas garantir que elas existam. A censura, mesmo travestida de prudência, é sempre reprovável. Uma feira literária que exclui quem pensa diferente trai o próprio sentido de sua criação: reunir, escutar, debater.
Mas a reação da Academia, ao escolher o silêncio, também me inquieta. Entendo o gesto, mas não o aceito. A ausência, neste caso, não é dignidade: é omissão. O escritor não se retira do espaço do diálogo, ainda que o diálogo seja áspero. A palavra não se purifica no recolhimento; ela se justifica na presença.
Sou membro da instituição e, a presidi, por isso mesmo, não me calo. Não há nobreza em afastar-se. Há, sim, uma espécie de vaidade travestida de integridade, como se o silêncio fosse sinônimo de virtude. Não é. O silêncio, quando fruto de orgulho, apenas perpetua o erro que pretendia denunciar.
A literatura, que nasceu para enfrentar o poder, não pode temer o conflito. O que se espera de uma Academia é que se levante quando a palavra é ferida, não que se retire para preservar aparências e derrame lágrimas em grupos de aplicativo de mensagens. Entre o ruído da feira e o silêncio da omissão, fico com o ruído: porque dele ainda nasce vida, enquanto do silêncio nasce apenas esquecimento.
A Flim pertence à cidade, aos leitores, à pluralidade. E é ali, entre o tumulto das ideias e o imperfeito convívio das diferenças, que a literatura reencontra sua razão de ser. Quando o orgulho fala mais alto que o dever, a cultura se empobrece. E uma Academia que escolhe o espelho ao invés da praça pública esquece o motivo pelo qual um dia se fundou: servir à palavra; não a si mesma e aos seus “importais”, importantes demais para coadjuvar.
Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Presidiu a Academia Joseense de Letras de 2022 a 2025. Integra a União Brasileira de Escritores.

