O Brasil tem um dom perigoso: transformar miudeza em campo de batalha, como se a rotina precisasse, todos os dias, de um inimigo portátil. Um chinelo vira bandeira, uma frase vira prova, um trocadilho vira “ataque”, e a engrenagem do ressentimento decide que a Havaianas merece punição porque Fernanda Torres, num comercial, brinca com o ditado do “pé direito”, e olha que ela nem está tão bem assim ali, um trabalho correto, sem brilho especial, dependente mais do conceito do que da atuação, para, logo depois, devolver a chave da piada: não é contra sorte, nem contra “a Direita”, é a favor de começar o ano com os dois pés, inteiro, presente, sem terceirizar a vida para o acaso.
A tristeza não está no boicote em si, espuma típica de rede social, mas no método que ele denuncia: o literalismo raivoso que finge não entender, porque a má-fé dá recompensa imediata, a sensação de pertencer a uma guerra. “direita”, membro do corpo, vira Direita, identidade ferida; a língua vira inimiga; o humor, conspiração; a nuance, traição. E a guerra, quando vira identidade, precisa produzir ofensas novas para respirar, inventar um inimigo por turno, encontrar “lacração” até no calendário.
Esse vício social foi treinado desde 2013, quando as ruas explodiram e muita coisa se misturou; indignação legítima, frustração com serviços públicos, raiva difusa, desejo de dignidade, e o assunto já não era só tarifa de ônibus: era a vertigem de um país que descobria o choque como linguagem, o “nós contra eles” como atalho emocional, o meme como argumento, a câmera do celular como juiz. Dali em diante, os extremos aprenderam a mesma coreografia: escolher um símbolo, arrancar o contexto, fabricar moral instantânea, convocar linchamento e seguir, porque o objetivo não é resolver, é manter o motor ligado.
Ninguém troca de sandália por causa de um projeto de nação; troca para encenar pureza. O boicote é barato, performático, rende aplauso rápido e dá a ilusão de ação, enquanto o cotidiano continua esmagando com o que importa: preço, emprego, saúde, escola, violência, transporte, tempo. Por isso a frase “começar com os dois pés” incomoda: ela pede inteireza, maturidade, leitura com contexto, discordância sem histeria. E aí cabe a imagem final, sem bravata: essa gente merece uma chinelada simbólica, dessas que devolvem o delírio ao seu tamanho real, porque um país não aguenta viver tropeçando em palavras como se fossem minas, perdendo, a cada tropeço, o chão comum onde ainda seria possível conversar.
Fabricio Correia é escritor, jornalista e professor universitário. É membro da União Brasileira de Escritores.

