A captura de um chefe de Estado por forças estrangeiras, realizada como ato de potência e exibida como troféu político, não inaugura uma nova era: ela reencena uma velha tentação, aquela em que o poder militar se declara suficiente para produzir legitimidade, e a legalidade internacional vira um detalhe retórico, invocado apenas quando convém. O problema central não é a biografia de Nicolás Maduro, nem o inventário de crimes que lhe atribuem, nem a repulsa compreensível que seu regime desperta; o problema é o método, o gesto e o recado e esse recado diz que a ordem internacional pode ser reescrita no apontar de armas, na potência bélica e no “eu mando”.
O paralelo com o Panamá de 1989 é inevitável. A invasão norte-americana, apresentada como cruzada contra Manuel Noriega, também veio embrulhada em justificativas morais e securitárias, e também terminou com um líder capturado e levado aos Estados Unidos para julgamento. O que permanece, décadas depois, não é a narrativa heroica, mas o precedente: a Assembleia Geral da ONU condenou a intervenção e a tratou como violação do direito internacional, ainda que isso não tenha revertido o fato consumado. O mundo aprendeu, naquele episódio, que a ONU pode reprovar; o que ainda não aprendeu é a punir o bastante para impedir a repetição.
Esse é o ponto em que o trumpismo entra como gramática do tempo. Trump não opera apenas como presidente; opera como estilo de desobediência institucional, e sua política externa costuma trocar o multilateralismo pela coreografia do choque, como se o planeta fosse uma arena doméstica e a diplomacia, um obstáculo “globalista” a ser ridicularizado. A desconstrução da ONU e dos organismos internacionais não aparece como consequência colateral: aparece como projeto, como prazer ideológico, como sinalização para uma base que entende “instituição” como insulto e “pacto” como fraqueza. A ordem do pós-guerra, com todos os seus defeitos, depende de uma ideia simples: nenhum Estado pode usar a força quando quiser, onde quiser, do jeito que quiser, porque o preço dessa licença é um mundo permanentemente em combustão.
A Carta da ONU é cristalina no núcleo que sustenta esse sistema: os membros devem se abster da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado. Aí está a espinha dorsal, e ela existe justamente para evitar que a política internacional volte a ser decidida por expedientes unilaterais. Quando um governo anuncia que capturou o presidente de outro país em seu território, sem mandato multilateral inequívoco, e ainda acena com a ideia de administrar a “transição” como se fosse tutela, o que se agride não é um homem: é a regra.
O trumpismo agrava esse cenário porque não apenas transgride: ele normaliza a transgressão, converte a ruptura em espetáculo e, no espetáculo, a multidão aprende a aplaudir o atalho. A mesma lógica que hostiliza tribunais, imprensa e universidades dentro de casa é projetada para fora com a mesma agressividade, e os organismos internacionais viram alvos preferenciais. O caso da Organização Mundial da Saúde é emblemático: Trump formalizou a retirada dos EUA da OMS em seu segundo mandato, e a ONU confirmou que a saída passará a valer em janeiro de 2026, num golpe que enfraquece respostas globais em saúde e sinaliza desprezo pelo esforço cooperativo internacional. Isso não é “reforma”; isso é desmonte. E o desmonte, num mundo de pandemias, guerras híbridas e crises climáticas, não pune burocratas: pune populações.
Condenar a captura de Maduro, portanto, não pede qualquer indulgência ao regime venezuelano. Pede, isto sim, fidelidade a um princípio civilizatório: a política internacional não pode ser reduzida à estética do raid, ao discurso da exceção permanente e ao voluntarismo armado. O Panamá ensinou o quanto um precedente desse tipo contamina o futuro; a Venezuela, agora, ameaça consolidar uma tese ainda mais perigosa, a de que basta um governo poderoso decidir que seu inimigo é “ilegítimo” para que a soberania alheia se torne matéria descartável.
A ONU precisa ser respeitada em suas decisões não por devoção ao papel timbrado, mas porque, sem ela; sem o mínimo de centralidade do direito internacional, sem o constrangimento multilateral, sem o ritual que obriga o mundo a argumentar antes de atirar, a regra que sobra é a da força, e a força sempre encontra um motivo. Hoje, o motivo pode ser “justiça”; amanhã, “segurança”; depois, “libertação”. No fim, o resultado costuma ser o mesmo: ruínas, ressentimento e a certeza de convencimento que apenas os vencedores imediatos conseguem ostentar.
A ação deve ser condenada com clareza: por violar a lógica da Carta da ONU, por aprofundar o desprezo trumpista ao multilateralismo e por plantar um precedente que incentiva novas aventuras unilaterais. Não se corrige autoritarismo importando outro apenas com bandeira diferente. Se o mundo aceitar que capturas extraterritoriais e tutelas improvisadas substituam o sistema multilateral, a pergunta deixará de ser “quem será o próximo Maduro”; a pergunta passará a ser “qual país será o próximo Panamá”.
Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Historiador, licenciado pela Universidade do Vale do Paraíba, é analista político.

