Foto: Reprodução

Morre Elza Berquó, pioneira da demografia brasileira, aos 100 anos

Morreu nesta quinta-feira (16), aos 100 anos, a matemática, estatística e demógrafa Elza Salvatori Berquó, uma das principais referências das ciências sociais brasileiras e pioneira na consolidação dos estudos populacionais no país.

Membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Elza Berquó construiu uma trajetória marcada pela produção científica, pela formação de pesquisadores e pela defesa dos direitos humanos. Seu trabalho ajudou a transformar a demografia em uma área estratégica para a compreensão das mudanças sociais, econômicas e familiares do Brasil.

Formada em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, em 1947, concluiu mestrado em Estatística pela Universidade de São Paulo dois anos depois. Em 1950, começou a trabalhar na Faculdade de Saúde Pública da USP, onde participou da implantação e do desenvolvimento do ensino de bioestatística.

No final da década de 1950, seguiu para os Estados Unidos, onde realizou estudos de doutorado na Universidade Columbia. De volta ao Brasil, fundou na USP o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional, considerado o primeiro núcleo formal dedicado à demografia no país e uma referência para pesquisadores de toda a América Latina.

Durante a ditadura militar, Elza Berquó foi afastada da universidade e teve seus direitos políticos cassados. Mesmo diante da perseguição, manteve sua atuação acadêmica e ampliou a influência de suas pesquisas sobre população, fecundidade, saúde reprodutiva, envelhecimento, relações raciais e desigualdade social.

Ela também teve papel decisivo na criação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, o Cebrap, instituição que reuniu intelectuais afastados das universidades pelo regime militar e se tornou um dos mais importantes centros de pesquisa social do país.

Ao longo de décadas, Elza Berquó coordenou estudos fundamentais para a formulação de políticas públicas, especialmente nas áreas de saúde, planejamento familiar, direitos sexuais e reprodutivos, envelhecimento e dinâmica populacional.

Sua produção acadêmica contribuiu para revelar profundas transformações na sociedade brasileira, como a queda da fecundidade, o aumento da expectativa de vida, as mudanças nas estruturas familiares e o crescimento da população idosa.

Reconhecida no Brasil e no exterior, recebeu homenagens de universidades, instituições científicas e entidades ligadas aos direitos das mulheres. Sua trajetória combinou rigor acadêmico, compromisso público e coragem intelectual.

Com sua morte, o Brasil perde uma das mais importantes cientistas de sua história e uma pesquisadora que dedicou a vida a compreender a população brasileira para ajudar a construir um país mais justo.

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