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Entrevista: Eduardo Cury (PL), candidato a deputado federal

“O Vale precisa entender que representação política também significa força para disputar investimentos”

Engenheiro, ex-prefeito de São José dos Campos e ex-deputado federal, Eduardo Cury construiu uma trajetória política diretamente ligada ao desenvolvimento do Vale do Paraíba e, nos últimos anos, ampliou sua atuação nos bastidores da política nacional. Prefeito de São José dos Campos por dois mandatos consecutivos, entre 2005 e 2012, esteve à frente do município em um período de expansão econômica e de investimentos em infraestrutura, tecnologia e inovação, tendo entre os marcos de sua administração a implantação do Parque Tecnológico.

Depois da experiência no Executivo, Cury chegou à Câmara dos Deputados, onde representou São Paulo e aprofundou sua participação nos debates nacionais. A partir de 2023, passou a atuar ao lado do senador Rogério Marinho na estrutura técnica da liderança da oposição no Senado Federal, participando da implantação de um modelo de shadow cabinet, ou gabinete sombra, destinado ao acompanhamento sistemático das políticas e decisões do governo federal.

Filiado ao PL e novamente candidato a deputado federal por São Paulo, Cury também participou de projetos partidários como o Rota 22, de iniciativas de comunicação política e da elaboração do programa nacional da legenda. Nesta entrevista ao Conversa de Bastidores, ele fala sobre sua passagem pelo Senado, representação política do Vale do Paraíba, voto distrital, eleições de 2026, Senado, Supremo Tribunal Federal, Tarcísio de Freitas, Flávio Bolsonaro e seu próprio futuro político.

Fabrício Correia — Você deixou a Câmara dos Deputados, mas permaneceu muito próximo de Brasília e passou a trabalhar com o senador Rogério Marinho na liderança da oposição. O que exatamente foi construído naquele período?

Eduardo Cury — No início de 2023, recebi do senador Rogério Marinho o convite para chefiar um trabalho técnico na liderança da oposição no Senado. Estruturamos algo inspirado no modelo britânico de shadow cabinet, o chamado gabinete sombra. Reunimos mais de 18 especialistas de diferentes áreas para acompanhar as ações do governo federal, fiscalizar políticas públicas e produzir análises técnicas. Foram mais de 100 relatórios, disponibilizados para senadores, deputados e também para a imprensa. Era uma oposição baseada não apenas no discurso político, mas em informação e acompanhamento permanente do governo.

Fabrício Correia — Essa atuação acabou levando você também para a estruturação política do PL. Que projetos passaram pelas suas mãos?

Eduardo Cury — Participei do Rota 22, inicialmente desenvolvido no Nordeste, buscando conversar diretamente com um eleitorado conservador e mostrar a relação entre determinados valores sociais e a agenda política da direita. Também participei da organização de seminários de comunicação com influenciadores digitais. Depois assumi a coordenação da elaboração do plano de governo para a candidatura presidencial do partido, trabalho que foi sendo adaptado ao cenário eleitoral e à candidatura de Flávio Bolsonaro.

Fabrício Correia — Existe uma velha frase em Brasília segundo a qual “a Câmara é o inferno e o Senado é o céu”. Você conhece por dentro as duas Casas. Essa diferença realmente existe?

Eduardo Cury — Existe uma dinâmica muito diferente. Constitucionalmente, o Senado representa os estados e a Câmara representa a população, mas essa separação acabou se modificando bastante no funcionamento do Congresso. O Senado se tornou uma grande Casa revisora. Vejo também um problema no mandato de oito anos dos senadores, porque é um período muito longo sem que o parlamentar precise revalidar sua representação nas urnas. Defendo mandatos de cinco anos e, para os cargos executivos, cinco anos sem reeleição.

Fabrício Correia — Em 2022 você recebeu mais de 92 mil votos e não conseguiu uma cadeira. Por que uma região com a dimensão econômica e populacional do Vale do Paraíba continua elegendo tão poucos deputados federais?

Eduardo Cury — O principal problema é a pulverização. Temos uma região com aproximadamente 1,9 milhão de eleitores, mas os votos são distribuídos entre centenas de candidatos, muitos deles de fora do Vale. Outras regiões conseguem concentrar melhor seus votos e, consequentemente, elegem bancadas maiores. Eu fui o candidato a deputado federal mais votado do Vale naquela eleição, mas a dispersão dos votos enfraqueceu nossa representação. Esse é um dos motivos pelos quais defendo o voto distrital: ele aproxima o representante da população e estabelece uma responsabilidade territorial mais clara.

Fabrício Correia — E o cidadão sente concretamente essa falta de representação?

Eduardo Cury — Sem dúvida. Uma bancada regional forte aumenta a capacidade de disputar recursos, obras, equipamentos e políticas públicas. Governos precisam de sustentação parlamentar e naturalmente dialogam mais intensamente com regiões que possuem representantes capazes de participar das votações e das negociações políticas. Quando uma região economicamente importante não transforma sua população em representação parlamentar proporcional, perde força política.

Fabrício Correia — A eleição presidencial continuará dominada pela polarização ou ainda existe espaço real para uma terceira via?

Eduardo Cury — Considero muito difícil. Tenho respeito por nomes como Ronaldo Caiado e Romeu Zema, mas uma eleição presidencial não termina quando se contam os votos. No dia seguinte começa o problema da governabilidade. Um presidente eleito por um partido pequeno precisa construir maioria no Congresso e pode acabar excessivamente dependente do Centrão. A candidatura de Flávio Bolsonaro parte de um bloco político com capacidade de formar bancadas relevantes na Câmara e no Senado e, portanto, de sustentar uma agenda conservadora e liberal.

Fabrício Correia — Nunca se falou tanto em eleição para o Senado quanto agora. Por que a direita considera essa disputa estratégica?

Eduardo Cury — Porque o Senado possui atribuições constitucionais fundamentais no equilíbrio entre os Poderes, inclusive em relação ao Supremo Tribunal Federal. Nesta eleição teremos a renovação de dois terços das cadeiras. Por isso existe uma estratégia clara de ampliar a bancada da direita, somando os senadores que permanecem no mandato aos que serão eleitos agora. A intenção é construir maioria para discutir reformas institucionais e restabelecer, na nossa avaliação, maior equilíbrio entre os Poderes.

Fabrício Correia — E onde entra São Paulo nesse tabuleiro? Qual é o peso de Tarcísio de Freitas?

Eduardo Cury — São Paulo continua sendo fundamental para o Brasil, tanto economicamente quanto politicamente. Tarcísio vem realizando uma gestão que considero excelente e a presença de Felício Ramuth como vice também fortalece essa composição. Existe uma relação de mão dupla: um bom desempenho da direita em São Paulo ajuda o projeto presidencial, assim como uma candidatura presidencial competitiva fortalece as chapas estaduais e proporcionais.

Fabrício Correia — Seu nome inevitavelmente continua associado à Prefeitura de São José dos Campos. Se voltar à Câmara dos Deputados, existe possibilidade de disputar novamente o Paço Municipal?

Eduardo Cury — Não. Tenho muito cuidado com os compromissos que assumo. Se o eleitor me der novamente um mandato de deputado federal, pretendo cumpri-lo integralmente. Meu objetivo será trabalhar pelas pautas nacionais e, especialmente, pela representação do Vale do Paraíba em Brasília. Não pretendo disputar a Prefeitura dois anos depois.

Fabrício Correia — Para terminar: diante de tantas candidaturas, qual deveria ser o raciocínio do eleitor do Vale do Paraíba na escolha de seus deputados?

Eduardo Cury — O eleitor precisa observar a viabilidade eleitoral. Para deputado federal em São Paulo existe uma quantidade muito alta de votos necessária para que uma candidatura seja competitiva, dependendo também do desempenho da legenda. Quando o Vale distribui milhares de votos entre candidaturas que não possuem possibilidade concreta de eleição, acaba fortalecendo indiretamente candidatos de outras regiões. Se quisermos recuperar representação em Brasília, precisamos concentrar votos em nomes regionais competitivos, que tenham trajetória, votação e condições reais de conquistar uma cadeira.

 

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