A candidatura de Augusto Cury talvez seja uma das ocorrências mais desconcertantes desta eleição porque surge depois de anos em que o país foi empurrado para uma disputa política cada vez mais emocional, mais identitária e menos interessada em qualquer forma de convivência, primeiro pela consolidação de um lulopetismo que tratou Lula como eixo quase insubstituível de seu campo político e depois pela ascensão de um bolsonarismo que organizou a direita em torno de uma fidelidade pessoal igualmente intensa, produzindo um ambiente em que milhões de brasileiros deixaram de discutir projetos de país para escolher lados, inimigos, símbolos e afetos.
É aí que Muito Além do Jardim, de Hal Ashby, com Peter Sellers, volta como uma referência quase incômoda, não porque Augusto Cury possa ser confundido com Chance, o jardineiro do filme, mas porque a história mostra como uma sociedade cansada, insegura e carente de respostas pode transformar linguagem simples em profundidade política, projetando sobre uma figura pública aquilo que deseja encontrar nela e confundindo serenidade com sabedoria, distância do conflito com capacidade de governar e frases de efeito com elaboração de Estado.
Cury aparece justamente no momento em que parte do eleitorado parece não suportar mais a repetição exaustiva da guerra entre Lula e Bolsonaro, e sua linguagem de autocontrole, equilíbrio, diálogo e pacificação encontra terreno porque oferece uma sensação de descanso depois de anos de confronto, embora esse seja exatamente o ponto em que a política precisa ser mais severa com ele, pois a Presidência da República não pode ser tratada como extensão de uma palestra, de um livro de autoajuda ou de uma técnica de reorganização emocional.
Governar o Brasil exige enfrentar interesses organizados, montar maioria no Congresso, disputar orçamento, escolher prioridades, suportar crises, administrar conflitos federativos, contrariar aliados, negociar com adversários, conduzir política externa e assumir decisões que necessariamente produzem perdas, frustrações e enfrentamentos, de modo que a pergunta central sobre Cury não deveria ser se ele transmite calma, esperança ou equilíbrio, mas se possui densidade política, equipe, projeto, capacidade de negociação e compreensão real do funcionamento do Estado.
O fenômeno é revelador porque mostra o grau de exaustão a que a polarização levou o país, já que depois de dois campos políticos organizados em torno de lideranças personalistas aparece um candidato cuja principal força está justamente em não carregar o peso simbólico dessa guerra, mas essa condição pode ser virtude eleitoral sem ser suficiente para governar, porque rejeitar a polarização é muito diferente de saber o que fazer quando ela deixa de ser discurso de campanha e volta a aparecer dentro do Congresso, dos tribunais, das ruas, dos partidos, dos sindicatos, do mercado e da própria máquina pública.
Cury terá de demonstrar que não é apenas a resposta emocional de um eleitorado cansado, mas uma candidatura capaz de sobreviver ao mundo real da política, e o eleitor terá de distinguir uma coisa da outra com bastante cuidado, porque um país que passou anos procurando salvadores ideológicos pode cometer o erro de procurar agora um salvador psicológico, trocando o excesso de confronto por um excesso de projeção e chamando essa troca de renovação.
Talvez seja essa a parte mais desconfortável de Muito Além do Jardim, pois o filme nunca falou apenas de um homem que chega perto do poder dizendo coisas simples, mas de uma sociedade tão desejosa de acreditar em alguma forma de ordem que acaba criando profundidade onde talvez exista apenas aquilo que ela mesma decidiu enxergar.
Fabrício Correia é escritor, historiador e analista político responsável editorial pela equipe do portal Conversa de Bastidores

