“Política é lugar de diversidade, não de privilégio”: uma conversa com Talita Cadeirante
Por Fabrício Correia
Programa Conversa de Bastidores — Jovem Pan
A política brasileira passou a conviver, nos últimos anos, com vozes que até pouco tempo permaneciam quase sempre do lado de fora dos espaços de decisão, e em Taubaté uma dessas presenças é a da vereadora Talita Cadeirante (PSB), professora, ativista dos Direitos Humanos, mulher lésbica e com deficiência, que transformou a própria experiência de vida em instrumento de participação pública e construiu um mandato marcado por temas como inclusão, acessibilidade, educação, diversidade e combate às desigualdades.
Em entrevista ao programa Conversa de Bastidores, da Jovem Pan, Talita falou sobre o início de sua trajetória política, a influência da escola pública em sua formação cidadã, os embates enfrentados dentro do Legislativo e a necessidade de substituir políticas meramente assistencialistas por iniciativas capazes de garantir autonomia real às pessoas com deficiência, além de criticar o uso de discussões artificiais sobre costumes como forma de afastar o debate de problemas concretos da população.
Fabrício: Sua trajetória política nasce também de uma história pessoal muito forte, mas como essa experiência se transformou efetivamente em participação pública numa região tradicional como o Vale do Paraíba?
Talita: Esse processo aconteceu de maneira muito natural, porque fiquei cadeirante aos 17 anos, depois de uma lesão medular, e desde então passei a perceber com ainda mais clareza a maneira como a sociedade enxerga a deficiência, inclusive por meio de frases aparentemente elogiosas, como quando alguém dizia que eu era muito inteligente “apesar da deficiência”, e foi justamente por isso que escolhi assumir o nome Talita Cadeirante, como uma forma de ressignificar essa identidade e afirmar que ela faz parte de quem eu sou, enquanto minha consciência política nasceu também dentro da escola pública e de uma família formada por uma trabalhadora metalúrgica e um policial militar, até que, em 2020, a entrada na política institucional surgiu de uma construção coletiva preocupada em ampliar a presença da juventude e de grupos historicamente pouco representados.
Fabrício: Quando direitos humanos e inclusão chegam ao plenário, quais são os obstáculos que mais dificultam um debate sério?
Talita: A desinformação continua sendo um dos maiores problemas, principalmente quando determinados agentes políticos transformam medos legítimos da população em narrativas que pouco têm a ver com os problemas concretos da cidade, como ocorreu no debate sobre uma suposta proposta de criação de banheiros unissex nas escolas, que sequer existia, enquanto questões muito mais urgentes, como falta de professores concursados, estrutura inadequada das unidades de ensino e segurança de crianças e adolescentes, acabavam ficando em segundo plano.
Fabrício: A polarização e o excesso de pautas de costumes acabam funcionando, então, como uma maneira de retirar o foco da política cotidiana?
Talita: Sim, porque quando todo o debate público é consumido por temas fabricados para provocar medo, confronto e engajamento, a população deixa de discutir aquilo que realmente interfere em sua vida, como qualidade da educação pública, funcionamento da saúde, desigualdade social e condições de trabalho, enquanto a política deveria justamente servir para enfrentar esses gargalos de maneira objetiva e responsável.
Fabrício: Na área da deficiência, qual mudança você considera mais urgente na maneira como o poder público formula suas políticas?
Talita: Precisamos abandonar a lógica puramente assistencialista e avançar para políticas que promovam autonomia, porque inclusão verdadeira significa garantir instrumentos para que cada pessoa possa participar plenamente da vida social, e foi nesse sentido que nosso mandato destinou recursos de emendas parlamentares para a chegada de tecnologias assistivas à rede municipal de saúde, permitindo que um ambulatório de reabilitação recebesse equipamentos modernos de comunicação alternativa depois de muitos anos sem investimentos dessa natureza, algo que pode acelerar o desenvolvimento de crianças e também melhorar profundamente a vida de suas famílias.
Fabrício: O que muda quando pessoas LGBTQIA+ passam a ocupar de maneira mais visível os espaços de decisão?
Talita: Muda porque a presença também demonstra capacidade política, técnica e institucional, além de mostrar que a diversidade existente na sociedade precisa aparecer nos espaços onde as decisões são tomadas, enquanto temas diretamente relacionados à vida da classe trabalhadora, como a discussão sobre o fim da escala 6×1, também foram impulsionados por parlamentares da nossa comunidade, provando que representação não significa falar apenas de identidade, mas participar de todas as grandes questões nacionais.
Vai e vem
Fabrício: Por que o magistério?
Talita: Porque a educação continua sendo uma das ferramentas mais poderosas de transformação social.
Fabrício: Qual realização do mandato mais lhe marcou?
Talita: Encontrar pessoas nas ruas que se reconhecem na nossa trajetória e começam a perceber que também podem ocupar espaços dos quais durante muito tempo estiveram afastadas.
Fabrício: O que significa diversidade?
Talita: É reconhecer na vida pública todas as pessoas que efetivamente compõem a sociedade.
Fabrício: E a fé?
Talita: É uma esperança ativa, capaz de nos fazer continuar trabalhando por dias melhores.
Fabrício: Que São Paulo você gostaria de ajudar a construir?
Talita: Um estado que represente o povo trabalhador e que coloque direitos e oportunidades acima de privilégios.

