Foto: Reprodução

Ciência confirma cervos de pelagem negra em duas regiões brasileiras

Uma característica nunca comprovada cientificamente no cervo-do-pantanal acaba de entrar nos registros da zoologia brasileira. Exemplares de Blastocerus dichotomus com o corpo excepcionalmente escuro foram documentados por pesquisadores em áreas do Pantanal e do Cerrado, confirmando a ocorrência de melanismo na espécie.

O fenômeno resulta de uma concentração elevada de melanina, responsável por tornar pelos e pele muito mais escuros que o padrão habitual. No caso desse cervídeo, conhecido pela tonalidade castanho-avermelhada, a transformação visual é particularmente evidente.

A primeira evidência obtida pelos cientistas surgiu em fevereiro de 2021, na Caiman Pantanal, em Mato Grosso do Sul, quando uma fêmea adulta com a coloração incomum foi fotografada. O achado surpreendeu porque décadas de acompanhamento da espécie na região não tinham produzido documentação científica semelhante.

O conhecimento popular, porém, já guardava pistas. Habitantes do Pantanal mencionavam animais chamados de “cervos pretos” muito antes do registro acadêmico, e até uma localidade próxima à Estação Ecológica de Taiamã, em Mato Grosso, recebeu o nome de Baía do Cervo Preto.

A descoberta ganhou outra dimensão com observações realizadas no Parque Nacional Grande Sertão Veredas, no Cerrado entre Minas Gerais e Bahia. Armadilhas fotográficas instaladas na região identificaram novos exemplares escuros, demonstrando que a ocorrência não se limitava ao animal encontrado em Mato Grosso do Sul. Entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, outros indivíduos com a mesma particularidade também foram acompanhados nas proximidades de ambientes alagáveis e cursos d’água.

O estudo reuniu pesquisadores da Onçafari e da Embrapa Pantanal e foi publicado na revista científica Notas sobre Mamíferos Sudamericanos. Antes dele, alterações de pigmentação como albinismo e leucismo já eram conhecidas no cervo-do-pantanal, mas o melanismo permanecia sem comprovação científica.

A partir dos novos registros, uma das questões passa a ser compreender por que a característica apareceu em populações geograficamente distintas. Entre as possibilidades investigadas está a influência do isolamento genético, especialmente nas populações menores do Cerrado, embora ainda não existam dados suficientes para estabelecer essa relação.

Também será necessário descobrir se a coloração interfere na adaptação ao ambiente, na temperatura corporal ou em outros aspectos da sobrevivência. Por enquanto, não é possível afirmar que a pelagem escura ofereça benefício ou prejuízo aos animais.

Maior cervídeo da América do Sul, o cervo-do-pantanal encontra no Pantanal brasileiro seu principal território de sobrevivência. A confirmação do melanismo acrescenta agora uma nova peça ao conhecimento sobre a espécie e transforma relatos preservados durante gerações pelos moradores locais em uma importante pista para a pesquisa científica.

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