Madame Satã e a “suruba” com o dinheiro da viúva

A República brasileira sempre conheceu seus salões,  jantares, as portas laterais e aquela intimidade obscena entre dinheiro e poder que raramente aparece no Diário Oficial, mas o caso Banco Master acrescentou à velha fotografia nacional uma cenografia difícil de superar, com jatinhos, hotéis, garrafas que custam pequenas fortunas, modelos estrangeiras, festas fechadas, celulares recolhidos na entrada e autoridades cortejadas por um banqueiro cuja instituição terminaria no centro de uma das maiores crises financeiras e políticas dos últimos anos.

Daniel Vorcaro parece ter compreendido muito cedo uma regra antiga de Brasília: dinheiro compra conforto, mas proximidade abre portas, e por isso as festas importam menos pelo sexo que eventualmente pudesse acontecer entre adultos; assunto privado e, por si só, sem interesse criminal , do que pela impressionante arquitetura de relações construída ao redor delas, porque ninguém desembolsa fortunas, transporta convidados, oferece bebidas raríssimas e organiza encontros reservados com gente poderosa apenas para demonstrar talento como anfitrião.

O episódio mais comentado na quebra de sigilo de Vorcaro, ocorreu no Halloween de 2023, quando mensagens obtidas pela Polícia Federal e reveladas pela imprensa mostraram a organização de uma festa no Madame Satã, em São Paulo, planejada para cerca de 120 mulheres e apenas 20 homens, enquanto conversas mencionavam Davi Alcolumbre, Rodrigo Pacheco e Dias Toffoli entre os possíveis convidados e Fábio Faria aparecia na articulação dos convites; aqui, entretanto, termina a licença da ironia e começa a obrigação do jornalismo, porque Alcolumbre, Pacheco e Toffoli negam ter comparecido, e registros públicos corroboram que alguns deles estavam em Brasília naquela noite, portanto citar alguém numa conversa não autoriza transformá-lo em participante da festa.

Mas o Madame Satã foi somente uma fotografia dentro de um álbum muito maior, porque surgiram relatos sobre o chamado “Cine Trancoso”, encontros em São Paulo e festas paralelas a agendas de empresários e autoridades no exterior, enquanto documentos analisados pela imprensa indicam aproximadamente R$ 60 milhões gastos em três grandes eventos internacionais de 2024, incluindo Londres, Nova York e Lisboa, com despesas que passaram por aeronaves, hospedagem, entretenimento e outras extravagâncias.

É nesse ponto que a expressão popular “dinheiro da viúva” deixa de ser apenas provocação, porque a pergunta verdadeiramente republicana não é quem bebeu, dançou ou dormiu com quem, mas de onde saiu cada centavo, qual interesse acompanhava tamanha generosidade e se alguma autoridade pública recebeu vantagem incompatível com o cargo, questões que precisam ser respondidas individualmente e com provas, não pela culpa coletiva produzida pelo escândalo.

A República não precisa conhecer a vida sexual de seus figurões, precisa conhecer suas relações financeiras, os presentes recebidos, viagens, contratos, favores, encontros e decisões, sobretudo porque o Master acabou conectado a operações bilionárias com o BRB, banco controlado pelo Distrito Federal, na gestão de Ibaneis Rocha, enquanto o Banco Central e as investigações passaram a escrutinar perdas e ativos envolvidos nessa relação.

Lula chamou o ambiente de “orgia pura” e disse que o país acabará sabendo “quem foi fazer suruba”, frase eleitoralmente explosiva, mas institucionalmente menor do que a pergunta que deveria sobreviver à eleição: quem se beneficiou da proximidade com Vorcaro, quem ofereceu contrapartidas e quais decisões públicas foram contaminadas por relações privadas?

Porque a verdadeira suruba, se as investigações demonstrarem a troca de vantagens por influência, jamais terá sido aquela realizada entre quatro paredes, mas a mistura entre dinheiro, negócios e Estado, essa promiscuidade muito mais antiga e perigosa na qual ninguém recolhe o celular na entrada, porque quem termina pagando a conta, sem convite, champanhe, jatinho ou direito de escolher a companhia, é sempre a viúva.

Fabrício Correia é escritor, historiador e analista político. Escreve regularmente para o portal Conversa de Bastidores.

WhatsApp
Facebook
Twitter