O homem não se torna bárbaro quando perde a razão, mas quando decide empregá-la para justificar a crueldade, e talvez seja essa a descoberta mais desconcertante de nosso tempo, quando indivíduos capazes de distinguir uma notícia de uma falsificação, uma crítica de uma ameaça e uma divergência de uma perseguição escolhem suspender o próprio julgamento para experimentar o prazer de participar da destruição moral de alguém.
O que acontece com Ana Elisa, diante das denúncias de ameaças racistas, violência sexual e divulgação de conteúdos de autenticidade contestada, ultrapassa a polarização política, expressão conveniente que frequentemente transforma decisões humanas em consequências inevitáveis de uma época, absolvendo aqueles que produzem ou legitimam a violência.
Jean-Paul Sartre compreendeu que o homem procura escapar ao peso de sua liberdade, refugiando-se em justificativas coletivas que lhe permitam acreditar que suas escolhas foram determinadas por alguma força exterior à própria vontade, mecanismo que ajuda a explicar como a perseguição encontra abrigo em discursos de defesa da família, combate ao inimigo ou fidelidade a determinados valores.
O agressor não precisa reconhecer sua crueldade quando consegue apresentá-la como dever, conservando uma imagem virtuosa de si mesmo enquanto participa de práticas que condenaria imediatamente se fossem dirigidas contra alguém de sua estima.
A mentira política encontrou nessa contradição uma extraordinária possibilidade de sobrevivência, pois deixou de depender da credibilidade de sua origem para se alimentar da necessidade de confirmação daqueles que a recebem, transformando a verdade em inconveniência e a dúvida em sinal de fraqueza.
Uma publicação falsamente atribuída a alguém, quando comprovada a falsificação, representa uma tentativa de substituir uma pessoa concreta por uma personagem fabricada, cuja função consiste em concentrar ressentimentos e oferecer à multidão um objeto sobre o qual descarregar suas frustrações, enquanto a vítima passa a responder não pelo que disse, mas por aquilo que outros decidiram colocar em sua boca.
No caso de Ana Elisa, as denúncias de intimidação racial e sexual acrescentam uma dimensão histórica particularmente dolorosa, porque o corpo de uma mulher negra, quando transformado em alvo de ameaças destinadas a constrangê-la no exercício de um mandato, passa a ser tratado pelos agressores como território sobre o qual pretendem reafirmar antigas relações de dominação.
Não se trata de atribuir motivação racista a toda crítica dirigida à parlamentar, mas de reconhecer que ameaças dessa natureza procuram atingir sua autonomia e produzir medo, recorrendo a uma história de exclusão que a conquista de representação eleitoral não conseguiu apagar inteiramente.
A questão ingressa, então, no domínio da filosofia moral, pois o problema fundamental não consiste na existência de pessoas que pensam diferentemente, mas na disposição de alguns indivíduos para negar ao outro a liberdade que reivindicam para si.
Criticar Ana Elisa, investigar suas declarações e cobrar coerência de sua atuação parlamentar são exercícios legítimos da democracia, mas nenhuma dessas prerrogativas autoriza ameaças ou falsificações deliberadas, assim como sua condição de vítima não a dispensa da responsabilidade pelas próprias manifestações públicas.
A dificuldade de sustentar simultaneamente essas duas exigências revela uma deformação do pensamento político, reduzido a uma relação de pertencimento na qual a verdade interessa menos do que a identidade de quem a pronuncia, e a gravidade de uma violência passa a depender da posição ocupada pela vítima no mapa das simpatias partidárias.
O indivíduo encontra no grupo uma maneira confortável de renunciar à responsabilidade, porque recebe justificativas prontas, inocências antecipadas e certezas que dispensam investigação, enquanto as plataformas digitais ampliam a velocidade dessa obediência e conferem aparência de participação política a comportamentos que frequentemente não exigem qualquer reflexão.
Seria equivocado, entretanto, atribuir à tecnologia uma vontade moral que pertence aos seres humanos, porque nenhum algoritmo absolve quem inventa uma acusação, divulga uma ameaça ou decide transformar o sofrimento de uma pessoa em espetáculo.
O aspecto mais inquietante dessa época não é a invenção da crueldade, conhecida desde as primeiras experiências humanas, mas sua integração à rotina, sua presença entre fotografias familiares, mensagens religiosas e demonstrações públicas de afeto, como se fosse possível ameaçar uma desconhecida pela manhã e retornar à noite à tranquilidade de uma consciência convencida da própria bondade.
A contradição não desaparece porque o agressor ama seus filhos, frequenta uma igreja ou acredita defender uma causa justa, pois nenhuma dessas circunstâncias modifica a natureza de suas escolhas, e talvez a forma mais persistente de má-fé consista em imaginar que as virtudes praticadas em determinados ambientes autorizam a suspensão da responsabilidade moral em outros.
O sofrimento provocado por essas práticas tampouco permanece confinado às redes sociais, porque ameaças concretas podem modificar a circulação, o trabalho e a intimidade de quem as recebe, impondo à vítima o custo de administrar uma violência cuja extensão dificilmente consegue conhecer.
Não precisamos presumir os sentimentos particulares de Ana Elisa para reconhecer a gravidade dessa situação, pois o problema político já está exposto quando uma representante eleita precisa considerar medidas extraordinárias de segurança para exercer direitos que deveriam estar assegurados a qualquer cidadão.
Cada ameaça tolerada amplia o espaço da ameaça seguinte, cada falsificação aceita por conveniência enfraquece a confiança na palavra pública e cada humilhação celebrada ensina aos espectadores que a dignidade pode ser suspensa quando o alvo pertence ao grupo considerado adversário.
A barbárie contemporânea não necessita destruir imediatamente as instituições democráticas, porque pode começar pela transformação interior daqueles que as habitam, quando o cidadão conserva o vocabulário dos direitos enquanto abandona a disposição de reconhecê-los no outro.
Ana Elisa poderá ser contestada durante toda a sua vida pública, como deve acontecer com qualquer representante eleita, mas a legitimidade dessa contestação depende da preservação das condições que permitem a ela responder, discordar e continuar presente sem que sua integridade seja convertida em instrumento de disputa.
A questão que permanece não diz respeito apenas ao destino de uma parlamentar, mas àquilo que cada um de nós aceita fazer com a liberdade que possui, porque o homem que encontra prazer na perseguição de alguém não deixa de ser livre enquanto persegue, e essa é precisamente a gravidade de sua condição, já que não pode transferir ao partido, à multidão ou ao espírito de seu tempo a autoria moral daquilo que escolheu.
Talvez o fracasso mais doloroso de nossa civilização esteja nessa distância entre a facilidade com que proclamamos a dignidade humana e a dificuldade de reconhecê-la quando se apresenta no rosto de alguém que não amamos. A barbárie começa quando essa distância deixa de nos constranger.
E se completa quando conseguimos contemplar o sofrimento de outra pessoa sem sentir necessidade de justificar sequer o nosso silêncio.
Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Integra a ANER – Associação Nacional dos Editores de Revistas e a União Brasileira de Escritores.

