O país que o bolsonarismo insiste em ignorar

Perder eleição faz parte do jogo. Você entra, faz a campanha, pede o voto, perde e vai para a oposição. O que não dá para aceitar é transformar o resultado das urnas no estopim para desmantelar o país. Quando a maioria escolhe um lado, a democracia exige o mínimo: maturidade para aceitar que o seu projeto não venceu desta vez. Só que o que a gente assiste hoje não tem nada a ver com grande debate nacional. É pura tática de autopreservação de uma família.

Flávio Bolsonaro teve milhões de votos. Isso é um fato indiscutível. O eleitor dele existe, tem todo o direito de cobrar o discurso conservador e querer ver suas pautas representadas. O problema é que essa força toda só dura até a página dois. Na hora em que a água bate no peito e a Justiça cobra explicações, a valentia do discurso evapora.

Essa história do senador pegar um avião para os Estados Unidos e ir atrás de asilo político é o fim da picada. A gente pode dar o nome técnico que quiser, mas politicamente isso tem um nome bem simples: fuga.

Como é que alguém quer se apresentar como a salvação do Brasil se, ao primeiro tranco institucional, corre para se esconder debaixo da bandeira de outro país? Não dá para exigir a faixa presidencial para governar 200 milhões de pessoas e, na primeira intimação, virar as costas para a própria pátria.

A crítica não é sobre o processo criminal em si, até porque todo mundo tem direito à defesa e à presunção de inocência até prova em contrário. O ponto aqui é a postura pública. É a coragem que só existe no microfone e no palco do comício entre uma dancinha ridícula e um refrão de dois neurônios.

E onde fica o eleitor que bancou essa candidatura até o fim? Onde ficam os líderes políticos, os deputados e os militantes que foram para a rua pedir voto para ele? Se lá no fundo todo mundo já desconfiava que o Flávio não ia aguentar o baque de uma derrota, por que insistiram no nome dele? Por que rifaram opções muito mais viáveis, como o governador Tarcísio de Freitas, que se sacrificaria sim para a disputa se Bolsonaro não vetasse, para insistir em um projeto focado unicamente na proteção de um sobrenome?

Ninguém é ingênuo de achar que uma campanha presidencial é só um debate de ideias. Mas transformá-la num mero balcão de negócios para blindar a família Bolsonaro é faltar com o respeito com o próprio eleitorado conservador. A direita brasileira não pode continuar refém de um clã. Que fique registrado de forma definitiva.

O discurso do movimento sempre foi muito bonito: pátria, soberania, verde e amarelo, “o Brasil acima de tudo”. Só que a coerência passou longe. Na hora de criticar o STF e incendiar a militância, a soberania nacional é sagrada. Na hora de responder pelos próprios atos, a Justiça brasileira não serve mais e o socorro tem que vir lá de fora. A bandeira do Brasil virou figurino de palco; o patriotismo, conveniência.

O Supremo erra muito mais do que acerta, é verdade, e os ministros não estão imunes a críticas e alguns, Moraes, Toffoli, Mendonça e Nunes Marques, infelizmente estão em páginas policiais. Qualquer cidadão pode e deve contestar abusos. Mas contestar dentro das regras do jogo é uma coisa; usar a estrutura do Estado e depois cair fora quando a conta chega é outra totalmente diferente.

O eleitor que foi para as urnas não é bobo. Ninguém vota para servir de bucha de canhão em briga de bastidor. Governa quem ganha, faz oposição quem perde, e todo mundo presta contas à lei. Se o bolsonarismo quiser continuar existindo como força política séria, o que para mim nunca foi, vai ter que aprender a lição mais básica da vida pública: não dá para amar o Brasil só quando o resultado nos favorece.

Fabrício Correia é analista político, historiador e professor universitário.

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