As eleições legislativas realizadas na terça-feira (3) provocaram uma profunda mudança no cenário político dos Estados Unidos. O Partido Democrata conquistou a maioria nas duas casas do Congresso, interrompendo o domínio republicano e impondo ao presidente Donald Trump o mais expressivo revés eleitoral de seu segundo mandato.
Na Câmara dos Representantes, os democratas somavam 228 das 435 cadeiras na manhã desta quarta-feira (4), enquanto os republicanos contabilizavam 139. Outras 68 disputas aguardavam definição. Caso as projeções se confirmem, a oposição poderá alcançar seu melhor desempenho legislativo desde 2008, ano da primeira eleição presidencial de Barack Obama.
A mudança também atingiu o Senado, onde os democratas chegaram a 54 assentos, ampliando em sete cadeiras sua representação anterior. O resultado supera a maioria necessária para controlar a Casa e assegura ao partido uma posição decisiva na apreciação de nomeações presidenciais e na condução de investigações parlamentares.
O avanço democrata ultrapassou o Congresso e alcançou governos estaduais tradicionalmente associados ao conservadorismo. No Texas, uma das maiores surpresas da eleição, James Talarico derrotou Ken Paxton na disputa pelo Senado, encerrando um longo período sem vitórias democratas para o cargo. Na eleição estadual, Gina Hinojosa superou o governador republicano Greg Abbott, que buscava a reeleição.
Outros resultados também ganharam significado histórico. Na Geórgia, Keisha Lance Bottoms tornou-se a primeira mulher negra eleita governadora de um estado norte-americano. Na Califórnia, Xavier Becerra, filho de imigrantes mexicanos, conquistou o governo estadual, tornando-se o primeiro latino eleito para a função. No Kansas, a vitória de Adam Hamilton para o Senado encerrou um intervalo de quase um século sem que um democrata conquistasse aquela cadeira.
O desempenho republicano refletiu o desgaste acumulado pela administração Trump, especialmente diante das preocupações com o custo de vida, a elevação dos preços dos combustíveis e as consequências econômicas da guerra contra o Irã. O afastamento de segmentos do eleitorado jovem e latino, importantes para as vitórias presidenciais do republicano, também contribuiu para a mudança.
Em entrevista à Fox News, Trump reconheceu o êxito dos adversários, mas rejeitou a interpretação de que o resultado representasse uma condenação pessoal de seu governo. O presidente atribuiu parte das perdas ao conflito no Oriente Médio e à insatisfação dos consumidores com os preços da gasolina. Posteriormente, voltou suas críticas contra integrantes do próprio partido e contra a emissora conservadora.
A nova composição do Congresso, que assumirá em janeiro de 2027, deverá dificultar a aprovação de propostas da Casa Branca. Com maioria nas duas casas, os democratas poderão intensificar a fiscalização do Executivo, convocar autoridades para prestar esclarecimentos, influenciar a distribuição de recursos federais e questionar decisões relacionadas à política migratória, à economia e às operações militares.
A possibilidade de abertura de um processo de impeachment também passa a integrar o horizonte político, embora a destituição presidencial dependa do apoio de dois terços dos senadores, patamar superior à maioria conquistada pela oposição.
Trump conservará, entretanto, instrumentos importantes de atuação, entre eles o poder de veto sobre projetos aprovados pelo Legislativo. A superação desse bloqueio exige maioria qualificada nas duas casas, o que poderá produzir sucessivos impasses entre o Congresso e a Presidência.
O resultado das eleições de meio de mandato redefine as condições políticas para a segunda metade da administração republicana e antecipa a disputa pela sucessão presidencial de 2028. Depois de dois anos marcados pela concentração de poder na Casa Branca, o eleitorado norte-americano devolveu à oposição a capacidade de interferir diretamente nos rumos do governo.
