A Academia Brasileira de Letras não precisa declarar um voto coletivo para que seus integrantes assumam suas escolhas diante do país, porque a convivência entre diferentes pensamentos, indispensável a uma instituição literária, também depende da liberdade de cada um para dizer o que pensa. Pertencer à Academia não obriga ninguém a abandonar a vida pública, assim como preservar a pluralidade da Casa não significa exigir que seus membros permaneçam calados quando consideram necessário falar.
Gilberto Gil, Rosiska Darcy de Oliveira, Milton Hatoum, Fernanda Montenegro e Lilia Schwarcz manifestaram apoio a Lula nesta eleição, vindos de experiências distintas, com obras, preocupações e trajetórias que merecem ser consideradas antes de qualquer tentativa de reduzir suas posições a uma conveniência partidária. Quem discorda deles tem todo o direito de discutir seus argumentos, mas precisa reconhecer que o exercício do pensamento também pode conduzir a uma escolha eleitoral explícita, assumida com a mesma independência com que se escreve, se interpreta ou se investiga o passado.
Gil colocou sua voz na campanha pela reeleição e, da janela de seu apartamento em Copacabana, acenou para os participantes de uma manifestação em apoio a Lula, num gesto cuja simplicidade me comove, porque ali estava um homem de reconhecimento mundial participando da vida de sua cidade, oferecendo o rosto à escolha que fez, sem considerar que sua consagração lhe recomendasse o recolhimento. Existe algo profundamente humano nessa disposição de continuar tomando parte, mesmo depois de uma vida inteira de realizações.
Rosiska assinou o manifesto de apoio a Lula e Alckmin divulgado em 17 de outubro, ao lado do economista e escritor Eduardo Giannetti, cuja presença amplia essa reflexão para além dos integrantes da Academia Brasileira de Letras. O documento preserva expressamente as divergências de seus signatários com o presidente e a liberdade de continuar criticando seu governo, uma ressalva que dá substância ao compromisso assumido, pois o voto não precisa encerrar o julgamento, nem a adesão a uma candidatura deve comprometer a capacidade de cobrar resultados.
Giannetti merece ser lembrado justamente nesse encontro entre escolha e independência, numa manifestação que reúne pessoas de diferentes origens políticas em torno da preservação das instituições, das liberdades e dos direitos sociais. A possibilidade de construir uma convergência sem apagar as diferenças é uma das tarefas mais difíceis da democracia, sobretudo quando a disputa pública passa a exigir fidelidades que não toleram uma pergunta, uma ressalva ou uma discordância.
Lilia Schwarcz também declarou seu apoio à chapa Lula e Alckmin, ao subscrever o manifesto de integrantes da comunidade judaica divulgado em agosto, e participou posteriormente da carta em defesa da Constituição e do Estado Democrático de Direito. Seu posicionamento integra uma discussão na qual o conhecimento da história pode ajudar a reconhecer a fragilidade de conquistas que, por estarem incorporadas ao cotidiano, parecem definitivas, até que alguém comece a tratá-las como concessões que podem ser retiradas.
Milton Hatoum tem sido firme ao relacionar sua posição à experiência da ditadura e aos riscos que identifica num novo governo da família Bolsonaro, trazendo para o debate a memória de sua geração e a preocupação com a continuidade das políticas de proteção social. Sua advertência deve ser lida como a avaliação de um escritor que conhece o sofrimento produzido pela violência política e considera insuficiente guardá-lo apenas nas páginas de seus romances.
Fernanda Montenegro, igualmente presente entre os artistas que apoiam Lula, acrescenta a essa mobilização uma trajetória dedicada à compreensão dos conflitos humanos, ao trabalho com a linguagem e ao encontro com o público. A atriz e a cidadã pertencem à mesma vida, e seria absurdo celebrar sua liberdade no palco enquanto se espera que, fora dele, ela renuncie a dizer o que pensa sobre o destino do país.
Ignácio de Loyola Brandão também tomou posição ao assinar a carta de 9 de outubro em defesa da democracia e da Constituição, com advertências sobre o avanço da ultradireita. Essa manifestação precisa ser reconhecida pelo que afirma, sem convertê-la automaticamente numa declaração individual de voto, porque a precisão também é uma forma de respeito à palavra de quem passou a vida escrevendo, sobretudo quando sua literatura tantas vezes examinou os mecanismos da violência, do medo e da submissão.
Marco Lucchesi, por sua vez, declarou voto em Lula em 2022, associando sua escolha à paz, à justiça social, à inclusão e à valorização da ciência e da cultura. A data pertence àquele gesto e deve acompanhá-lo, mas seu significado permanece numa compreensão da vida pública em que o acesso ao livro, à educação e ao conhecimento constitui uma responsabilidade coletiva, com consequências sobre a liberdade de cada pessoa.
Ailton Krenak precisa estar nessa reflexão com a autonomia que caracteriza sua presença pública, sem que lhe seja atribuída uma declaração eleitoral atual que não esteja confirmada. Suas críticas aos recursos insuficientes destinados aos povos originários e aos limites da política ambiental do governo Lula lembram que a participação intelectual também se realiza na cobrança, inclusive quando ela incomoda aqueles de quem se esperavam respostas melhores. Ouvi-lo exige aceitar que sua voz não existe para ornamentar consensos.
E penso em Fernando Henrique Cardoso, nosso eterno presidente no reconhecimento afetivo de sua importância para a vida brasileira, que em 2022 declarou voto em Lula em nome da democracia e da inclusão social, depois de décadas de rivalidade política. A grandeza daquele gesto esteve na capacidade de reconhecer uma responsabilidade que ultrapassava a disputa entre seus projetos, sem precisar negar as diferenças que marcaram a história dos dois.
Sua fragilidade de saúde não apaga esse compromisso, embora o respeito também nos recomende não falar em seu lugar, nem atribuir-lhe uma manifestação que não fez. Prefiro guardar a força do exemplo que deixou registrado, quando compreendeu que a defesa da democracia permitia estender a mão a um antigo adversário, e que nenhuma biografia se diminui por reconhecer o que o país necessita num momento decisivo.
Esses intelectuais não pensam da mesma maneira, não fizeram as mesmas escolhas ao longo da vida e não precisam concordar em tudo para participar de uma responsabilidade comum. Alguns declararam apoio a Lula, outros firmaram compromissos públicos em defesa da ordem democrática, enquanto vozes independentes continuam a cobrar direitos e a denunciar insuficiências, compondo uma conversa que perderia sua importância se fosse reduzida a uma lista de celebridades.
A Academia pode preservar sua pluralidade enquanto seus integrantes respondem pelo que dizem, pelo que apoiam e pelo que recusam. É assim que uma instituição permanece aberta à vida, por meio de pessoas que continuam sujeitas às inquietações de seu tempo e sabem que o reconhecimento recebido não as dispensa de escolher, sobretudo quando a escolha terá consequências para tantos que jamais ocuparão uma cadeira entre os imortais.
Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Integra o Conselho Deliberativo da Academia Brasileira de Cinema, a União Brasileira de Escritores e a União Brasileira de Compositores. Preside a Academia Joseense de Letras, pela segunda vez.

