Foto: Grok – AI X

A ilusão da autossuficiência: O novo “velho” Trump

A declaração do presidente Donald Trump a jornalista da TV Globo Raquel Krähenbühl, ao afirmar que os Estados Unidos “não precisam do Brasil ou da América Latina”, reflete uma retórica que, embora eficaz para galvanizar apoiadores internos, esconde um perigoso descompasso com a realidade histórica e diplomática. Ao longo dos séculos, a humanidade aprendeu que o progresso e a prosperidade nunca foram frutos de isolamentos soberanos, mas da interação entre culturas, economias e ideias. A frase de Trump é, em essência, a negação de um princípio que tem sustentado as relações internacionais desde o Iluminismo: a cooperação é a chave para a sobrevivência e a evolução das sociedades.

A história é um testemunho inequívoco de que nenhum império, civilização ou nação alcançou a grandeza sem o apoio de outros. Os Estados Unidos, cuja retórica de independência é frequentemente celebrada, devem muito de seu sucesso ao intercâmbio comercial, à imigração e às alianças políticas e militares. Desde os empréstimos europeus que financiaram sua guerra de independência até as redes globais de ciência e tecnologia que impulsionaram seu progresso, os Estados Unidos sempre se beneficiaram de sua posição em um mundo interconectado.

O Brasil, frequentemente subestimado nos cenários de poder, desempenha um papel estratégico para a economia global. Como um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, o país é vital para a segurança alimentar de dezenas de nações. Sua biodiversidade, simbolizada pela Amazônia, é peça central no equilíbrio climático planetário. Minimizar a importância do Brasil no contexto internacional é uma falha diplomática e um gesto que ignora o papel de todos os países em uma rede de interdependências que sustenta o delicado tecido de nossa civilização.

Trump, ao adotar uma retórica de isolamento, refuta a história, fecha os olhos para os desafios contemporâneos que exigem respostas coletivas e celebra sua própria imagem carcomida por preconceitos. As crises climáticas, a volatilidade econômica e os fluxos migratórios são problemas além fronteiras. A pandemia de Covid-19, que devastou o mundo em uma velocidade alarmante, deixou claro que as soluções para problemas globais não podem ser unilaterais. O avanço das vacinas e a mitigação da crise sanitária só foram possíveis porque cientistas e instituições de diferentes nações trabalharam juntos, trocando conhecimento e recursos.

Ao ignorar essas lições, Trump enfraquece a posição dos Estados Unidos no cenário internacional e reforça sua visão distorcida da liderança global. A verdadeira força de uma nação não reside em sua capacidade de se isolar, mas em sua habilidade de inspirar confiança, construir alianças e liderar pelo exemplo. Uma liderança que exclui, ao invés de incluir, inevitavelmente cava sua própria irrelevância.

A resposta do presidente Lula, ao reiterar o desejo de uma relação de cooperação, reflete uma tradição brasileira que tem suas raízes na diplomacia do entendimento. O Brasil, desde sua formação, tem buscado mediar conflitos, promover o diálogo e fortalecer o multilateralismo. Esse posicionamento longe de submissão, é um reconhecimento da complexidade das relações internacionais e da necessidade de uma abordagem equilibrada e pragmática.

Se analisarmos a história das relações internacionais veremos diversos exemplos em que o isolacionismo e a soberba levaram ao declínio. Nenhuma nação é uma ilha. Mesmo as mais poderosas sucumbem ao peso da autossuficiência imaginada quando enfrentam desafios que exigem a soma de esforços. Trump, ao promover uma visão de mundo onde os Estados Unidos são um monólito autossustentável, ignora os alicerces que sustentam sua própria nação: uma economia conectada, uma ciência colaborativa e uma diplomacia que, em seus melhores momentos, soube construir pontes ao invés de muralhas.

Dizer que “não precisamos deles” é desconsiderar que as relações internacionais não são uma contabilidade simplista de quem dá mais ou recebe mais. São interações complexas, onde as partes, em conjunto, produzem algo maior do que poderiam isoladamente. A fala de Trump é, portanto, um reflexo de uma visão que não compreende o século XXI.

Em vez de adotar uma retórica de exclusão, o momento exige líderes que reconheçam a interdependência como uma oportunidade, não como um fardo. O futuro não será construído por aqueles que fecham portas, mas por aqueles que entendem que as maiores conquistas da humanidade vêm da capacidade de somar, de integrar e de compreender que nenhum país prospera sozinho.

A grandeza de uma nação é medida não pelo que exclui, mas pelo que consegue incluir. Negar isso é um erro estratégico, abjeto, imoral. O destino das nações está inextricavelmente ligado. Ignorar essa realidade é escolher o caminho dos grandes párias da história.

Fabrício Correia é historiador, licenciado em Geografia, professor universitário com especialização em Acessibilidade, Diversidade e Inclusão, escritor e jornalista. Presidiu a Academia Joseense de Letras e integra a Academia Brasileira de Cinema e a União Brasileira de Escritores. É o CEO da Kocmoc New Future, responsável pela agência de notícias “Conversa de Bastidores”.

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