Talvez Nossa Senhora Aparecida esteja cansada de nós, embora mãe nenhuma se permita esse cansaço por inteiro, e talvez por isso eu prefira imaginá-la em silêncio, olhando este país que tantas vezes pronunciou seu nome para pedir emprego, saúde, proteção para um filho, chuva para a terra ou simplesmente alguma força para continuar, enquanto agora alguns tentam arrastá-la para uma eleição como se até o sagrado precisasse vestir a camisa de um lado e entrar no barulho que tomou conta da política brasileira.
Aparecida veio da água pelas mãos de homens pobres, aqui no rio Paraíba do Sul, e nunca precisou dos poderosos para permanecer entre nós, e isso talvez explique por que sua imagem atravessou três séculos sem depender das conveniências de Brasília, porque antes de ser solenidade, basílica, feriado ou título oficial ela já pertencia àquela gente que caminhava quilômetros para agradecer uma graça e que reconhecia naquela pequena imagem escura alguma coisa de si mesma.
Agora seu nome aparece no centro de uma disputa eleitoral, cercado por uma informação sem comprovação sobre a retirada do título de Padroeira do Brasil e por decisões conflitantes dos tribunais, em especial em nosso “quase sagrado” STF, enquanto a religião, outra vez, corre o risco de deixar o lugar íntimo da consciência para servir aos interesses de quem descobriu que Deus também pode render votos.
É justamente aí que penso na bestialidade que se instalou em setores da direita radical brasileira, não porque ser de direita constitua qualquer desvio democrático, mas porque uma parte desse campo escolheu durante anos alimentar uma política na qual a violência verbal passou a parecer natural, o adversário deixou de ser alguém com quem se disputa o destino do país e a própria fé começou a ser apresentada como certificado de legitimidade para ocupar o poder.
Não sei se Nossa Senhora escolheria palavras para responder a isso, e talvez essa pretensão de falar por ela seja exatamente o erro que deveríamos evitar, mas posso imaginar sua oração voltada para um Brasil que consiga sair dessa deformação sem precisar substituir uma intolerância por outra, porque a derrota mais profunda de uma sociedade começa quando ela aceita que destruir moralmente quem pensa diferente seja uma forma legítima de fazer política.
A Padroeira não precisa ser transformada em cabo eleitoral de ninguém, e muito menos ter sua imagem empurrada de um palanque para outro enquanto homens discutem quem possui mais intimidade com Deus, porque sua força simbólica está justamente no contrário, naquela permanência quase silenciosa de quem viu governos desaparecerem, presidentes virarem retratos e movimentos políticos perderem até o nome enquanto o povo continuava chegando a Aparecida com fotografias dentro da carteira, promessas antigas e dores que jamais apareceriam numa campanha eleitoral.
Quero pensar que ela esteja em oração para que essa chaga que fez da religião um instrumento de confronto passe logo e que desapareça aquilo que torna qualquer pensamento político incapaz de reconhecer humanidade fora de suas próprias fronteiras.
Quando esta eleição terminar, vencedores ocuparão gabinetes e derrotados procurarão compreender as urnas, mas nenhum resultado será suficiente para resolver o que aconteceu conosco se continuarmos aceitando que a fé seja usada para separar brasileiros entre os que supostamente pertencem a Deus e aqueles que deveriam ser tratados como seus inimigos. Nossa Senhora Aparecida continuará recebendo todos eles, inclusive os que votaram uns contra os outros, porque diante de uma mãe não existe urna capaz de dividir seus filhos em eleitos e condenados.
Talvez esteja justamente aí a resposta mais poderosa que Aparecida pode oferecer a quem tenta recrutá-la para uma guerra política: ela permanecerá quando os palanques forem desmontados, quando os discursos forem esquecidos e quando os donos momentâneos do poder forem apenas nomes nos livros. O Brasil já viu muitos homens acreditarem que poderiam falar em nome de Deus. Nossa Senhora Aparecida atravessou todos eles em silêncio.
Fabrício Correia é escritor, jornalista, historiador e analista político. Escreve regularmente neste espaço. Integra a Associação Nacional dos Editores de Revistas e a União Brasileira de Escritores.

