Um país cabe mal nos minutos de um debate, mas certas insuficiências de um candidato cabem perfeitamente numa resposta, sobretudo quando a pergunta exige aquilo que a propaganda procura dispensar: conhecimento, responsabilidade e alguma ideia concreta do que fazer com o poder.
Na disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, o encontro diante das câmeras oferece ao eleitor a oportunidade de interromper, ainda que por algumas horas, o conforto das versões distribuídas pelas campanhas, nas quais cada candidato escolhe o assunto, controla o enquadramento e termina a conversa antes que alguém peça explicações. No debate, a pergunta pode voltar, a contradição pode ser exposta e o adversário permanece ali, com direito a contestar.
Lula comparece com uma trajetória que permite confrontar suas palavras com decisões, resultados, concessões e erros de governo, enquanto Flávio precisa demonstrar o que existe de projeto próprio em uma candidatura cujo principal patrimônio político é o sobrenome. Ao presidente cabe explicar por que merece continuar e o que pretende corrigir; ao senador, apresentar as condições que reúne para assumir uma responsabilidade muito maior do que a de representar o campo político do pai.
Essa diferença deveria orientar as perguntas, porque submeter os dois ao mesmo cronômetro não significa dispensar nenhum deles das particularidades de sua história. A experiência de Lula precisa responder pelo desgaste acumulado no exercício do poder, assim como a promessa de mudança de Flávio precisa esclarecer suas relações com o passado que pretende levar novamente ao Planalto.
O eleitor tem o direito de saber como cada um pretende enfrentar a demora por uma consulta, a renda consumida antes do fim do mês, o transporte que rouba horas de convivência e o medo que determina o horário de voltar para casa. São problemas conhecidos, mas a familiaridade com o sofrimento alheio não pode servir de desculpa para respostas vagas, repetidas com a segurança de quem já aprendeu a pronunciá-las sem precisar pensar.
Uma proposta começa a merecer atenção quando seu autor explica como executá-la, de onde virão os recursos, quais interesses serão contrariados e em quanto tempo a população poderá cobrar resultados. Prometer uma melhoria sem admitir o trabalho necessário para realizá-la é uma forma de esconder do cidadão parte da escolha que está sendo feita em seu nome.
Também seria necessário recuperar uma pergunta que costuma desaparecer sob as acusações cruzadas: para que cada candidato deseja governar? A vontade de vencer é evidente, mobiliza partidos, aliados e estruturas de comunicação, mas não esclarece o destino que se pretende dar ao mandato. O país precisa conhecer as prioridades que sobreviverão ao encerramento dos comícios, quando já não houver aplausos acompanhando cada anúncio.
O trabalho, nesse debate, merece mais do que a menção protocolar ao emprego. Quem passa a maior parte da vida entre o expediente e o deslocamento precisa saber quando poderá estudar, cuidar dos filhos, acompanhar os pais ou simplesmente descansar sem culpa. A discussão sobre desenvolvimento fica incompleta quando contabiliza a produção e ignora as condições de existência de quem a sustenta.
Lula tem razões para defender o que construiu, mas precisa reconhecer o que continua esperando solução, inclusive entre aqueles que confiaram nele. Flávio tem liberdade para criticar o governo, mas precisa mostrar como governaria, porque a rejeição ao adversário pode reunir votos sem produzir uma única resposta para a manhã seguinte à posse.
Nenhum debate oferece uma radiografia infalível de quem está no palco, e seria ingênuo confundir desenvoltura diante das câmeras com capacidade administrativa. Ainda assim, a maneira como alguém enfrenta uma pergunta revela sua disposição para prestar contas: se reconhece o problema, se conhece seus limites, se admite uma dificuldade ou se procura um inimigo a quem entregar a culpa.
É por isso que o melhor momento de um confronto eleitoral talvez seja aquele que rende menos nas redes, quando a resposta abandona a facilidade da provocação e obriga o candidato a sustentar uma ideia até o fim. Nesse instante, o eleitor consegue enxergar alguma coisa além da campanha e começar a avaliar o governo que poderá receber.
Quando as luzes do estúdio se apagarem, milhões de brasileiros ainda precisarão acordar cedo, disputar lugar no ônibus e fazer contas diante de uma prateleira. É a essas pessoas, com seus dias concretos e suas necessidades adiadas, que cada resposta deveria ser dirigida.
Fabrício Correia é escritor, historiador e analista político.

