Avante aposta R$ 1,2 milhão em Manoel Gomes e reedita a fórmula da celebridade eleitoral

O Avante decidiu investir R$ 1,2 milhão na campanha de Manoel Gomes, o cantor que se tornou conhecido nacionalmente com “Caneta Azul” e agora disputa uma vaga de deputado federal por São Paulo, numa operação política que chama atenção menos pelo direito legítimo de qualquer cidadão elegível concorrer a um mandato e muito mais pela dimensão do investimento partidário destinado a uma candidatura cuja força pública foi construída originalmente no entretenimento, na viralização digital e no reconhecimento espontâneo de um personagem que atravessou o país muito antes de apresentar qualquer trajetória parlamentar consistente.

O movimento recupera uma estratégia já conhecida da política brasileira, na qual partidos procuram transformar celebridade em capital eleitoral, reconhecimento de nome em intenção de voto e presença permanente nas redes em possibilidade concreta de desempenho nas urnas, numa lógica que ganhou força especialmente depois da eleição de Tiririca para a Câmara dos Deputados em 2010, quando o humorista recebeu mais de 1,3 milhão de votos e mostrou às legendas que personagens populares poderiam alterar de maneira expressiva a matemática do sistema proporcional.

Manoel Gomes já havia tentado ingressar na política em 2022, quando concorreu a deputado estadual no Maranhão e recebeu 7.543 votos, resultado que não lhe garantiu mandato, mas que tampouco encerrou o interesse partidário em sua popularidade, porque em 2026 ele reaparece numa disputa muito maior, no principal colégio eleitoral do país, com estrutura financeira significativamente mais robusta e com o respaldo de uma legenda que decidiu transformar sua enorme visibilidade pública em aposta eleitoral concreta.

A discussão relevante, portanto, não deve cair na caricatura nem na desqualificação pessoal do candidato, porque fama, profissão artística, origem social ou maneira de se comunicar não constituem impedimento para o exercício da política, enquanto a Constituição não exige diploma, carreira técnica ou formação acadêmica específica de quem pretende disputar uma cadeira no Legislativo, mas exatamente por isso o debate precisa se deslocar para os critérios adotados pelos partidos quando decidem quem receberá milhões em recursos de campanha e quais projetos justificam essas escolhas.

O ponto central está na responsabilidade de uma legenda ao destinar uma quantia expressiva a uma candidatura que se apresenta primordialmente pela força de uma marca pessoal, sobretudo num sistema em que parte relevante do financiamento eleitoral vem de recursos públicos e em que cada decisão partidária sobre distribuição de dinheiro traduz prioridades, estratégias e expectativas de retorno político, institucional e eleitoral.

A Câmara dos Deputados, afinal, não é prolongamento das redes sociais nem palco de entretenimento, porque seus integrantes votam orçamento, impostos, reformas constitucionais, políticas públicas, fiscalização do governo, regras trabalhistas, segurança, saúde, educação e decisões que atingem diretamente a vida de milhões de brasileiros, o que torna legítimo perguntar não apenas quantos seguidores determinado candidato possui ou quantas pessoas reconhecem seu rosto, mas também o que ele pretende fazer com o mandato que busca conquistar.

É nesse ponto que a aposta do Avante se torna maior do que a própria candidatura de Manoel Gomes, porque ela reabre uma discussão antiga e necessária sobre o quanto os partidos brasileiros estão dispostos a privilegiar notoriedade em detrimento de formação política, construção programática, experiência institucional e capacidade de apresentar propostas minimamente estruturadas para o exercício de uma função pública de tamanha responsabilidade.

Manoel Gomes pode concorrer, pode fazer campanha, pode defender suas ideias e pode pedir votos, enquanto o eleitor tem o direito de julgá-lo nas urnas, mas o partido que investe R$ 1,2 milhão em sua candidatura também deve estar sujeito ao escrutínio público sobre os motivos dessa escolha, especialmente porque popularidade pode explicar a estratégia, mas não substitui a obrigação de oferecer ao eleitor um projeto claro de representação.

A “Caneta Azul” fez de Manoel Gomes um personagem conhecido em praticamente todo o país, e agora a eleição de 2026 colocará à prova se essa notoriedade será acompanhada por proposta, preparo e capacidade de atuação parlamentar, porque entrar no Congresso exige muito mais do que ser lembrado, compartilhado ou reconhecido, exigindo sobretudo responsabilidade diante de um mandato que não pertence ao candidato, mas à sociedade que o concede.

 

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