Foto: Reprodução

Avenida Lula: homenagem na Sapucaí vira palco de disputa política e reacende debate sobre limites entre Carnaval e poder

A Marquês de Sapucaí viveu, neste domingo, uma daquelas noites em que o Carnaval deixa de ser apenas espetáculo e volta a ser linguagem nacional — com tudo o que isso carrega de beleza, contradição e ruído político. A Acadêmicos de Niterói levou para a avenida um enredo dedicado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, com referências diretas à trajetória do líder sindical que chegou ao Planalto. A homenagem, anunciada havia semanas, desembocou no que parecia inevitável: a festa como arena, o samba como argumento, a arquibancada como termômetro.

O tributo foi acompanhado por Lula em um camarote. A presença do presidente na Sapucaí, diante de um desfile que o celebra nominalmente, consolidou a dimensão pública do episódio: não era somente uma escola exaltando um personagem histórico; era o próprio homenageado ali, sob holofotes, no momento em que o Brasil se vê novamente polarizado por símbolos. Nas arquibancadas, o nome de Lula foi entoado por parte do público, enquanto críticas se multiplicavam fora do sambódromo, em redes sociais e em declarações de adversários.

Enredo, alegoria e a narrativa do “operário do Brasil”

A escola apostou numa dramaturgia de ascensão social: o menino pobre, o migrante, o metalúrgico, o sindicalista, o presidente. A estética do desfile apresentou imagens de trabalho, povo e esperança, embaladas por uma leitura afetiva do personagem — uma espécie de Lula-mito, convertido em figura de reencontro nacional. A opção por uma homenagem sem ironia, franca, assumida, explica por que o desfile foi lido por simpatizantes como celebração e por críticos como exaltação política.

No centro dessa controvérsia esteve também a participação da primeira-dama, Janja, prevista para integrar o desfile. Para apoiadores, trata-se de um gesto de proximidade popular e de reconhecimento cultural. Para opositores, a presença de figuras do governo na avenida reforça a tese de instrumentalização do Carnaval por um projeto político.

O embate fora da avenida: Justiça, pressão e reação da oposição

Antes mesmo de o desfile acontecer, a homenagem já tinha provocado movimentação judicial e pressão política. Houve contestação sobre a escola dedicar o enredo a um presidente em exercício e, sobretudo, sobre a presença de agentes públicos num evento que seria transmitido, comentado e explorado politicamente. O governo, por sua vez, tratou o episódio como expressão cultural e lembrou que o Carnaval historicamente já celebrou e criticou presidentes, governadores, militares, artistas e símbolos nacionais.

A oposição ocupou o espaço previsível: acusou a escola de fazer propaganda, questionou o uso de imagem, criticou o que chamou de “culto” e associou a homenagem ao debate recorrente sobre corrupção — tema que reaparece sempre que a figura de Lula é tratada como síntese do país. Lideranças oposicionistas também investiram na leitura de que a Sapucaí estaria sendo “tomada” por uma agenda governista, numa tentativa de tensionar o imaginário de festa popular com a ideia de aparelhamento.

Entre a tradição e o limite: quando o Carnaval vira plebiscito

A pergunta que atravessou a noite, no fundo, não foi “pode ou não pode homenagear?”. O Carnaval sempre homenageou, sempre disputou memória, sempre escolheu heróis e vilões, sempre recontou o Brasil à sua maneira. A pergunta real foi outra: o que muda quando o homenageado é um presidente em exercício e está presente, vendo a própria biografia virar espetáculo? A fronteira entre celebração cultural e capital político, nesse caso, não se resolve com uma linha no regulamento; ela se resolve na percepção pública — e percepção pública, hoje, é campo minado.

Para os defensores, a homenagem reafirma a tradição do samba como narrativa do povo: um homem do chão, elevado a símbolo de mobilidade, encontra na avenida um espelho. Para os críticos, a cena produz uma confusão perigosa entre Estado e festa, governo e arquibancada, liderança e culto — e abre precedente para que a Sapucaí se torne, mais do que palco de enredos, palanque de temporadas.

A Sapucaí como retrato do Brasil

No fim, o que aconteceu foi menos sobre Lula e mais sobre o Brasil que ele representa e divide. A avenida mostrou, simultaneamente, o país que ainda se comove com a ideia de ascensão e o país que desconfia de toda consagração. O Carnaval, que costuma metabolizar tensões em fantasia, dessa vez expôs a tensão sem anestesia: a política entrou na avenida não como tema abstrato, mas como presença concreta.

A Acadêmicos de Niterói desfilou. A Sapucaí aplaudiu e contestou, cada qual à sua maneira. E o Brasil, como sempre, saiu do sambódromo com a sensação ambígua de que a festa explica mais do que parece e que, quando o enredo é o poder, nenhum refrão fica apenas no canto.

 

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