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Bets: quando o jogo deixa de ser jogo

Durante alguns anos o Brasil tratou as bets como uma novidade inevitável trazida pela tecnologia, permitiu que elas ocupassem o futebol, a televisão, as redes sociais e principalmente o telefone celular de milhões de pessoas, até que se tornou difícil assistir a uma partida sem ser convidado a apostar justamente no instante em que a emoção diminuía a capacidade de calcular o risco, e talvez somente agora, depois de uma expansão cuja velocidade deveria ter provocado muito antes uma discussão pública séria, o país esteja disposto a perguntar se aquilo que nasceu sob o argumento da liberdade individual não acabou produzindo um problema que ultrapassa em muito a escolha particular de quem decide arriscar alguns reais.

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de proibir as bets merece apoio porque enfrenta uma realidade que a regulamentação não conseguiu resolver, embora seja impossível esquecer que o próprio governo organizou esse mercado, estabeleceu regras para seu funcionamento, concedeu autorizações e passou a arrecadar impostos sobre uma atividade que agora considera incompatível com o interesse público, contradição que precisará ser explicada sem subterfúgios, mas que não deveria servir como argumento para manter indefinidamente uma política apenas porque o Estado demorou a reconhecer suas consequências.

Existe uma diferença profunda entre o cidadão que eventualmente faz uma aposta e uma indústria concebida para mantê-lo apostando, estudando seus hábitos, oferecendo estímulos permanentes e reduzindo a poucos segundos a distância entre o impulso e o dinheiro perdido, especialmente quando essa estrutura encontra uma sociedade marcada pelo endividamento e pela dificuldade de ascensão econômica, na qual a promessa de um ganho extraordinário pode adquirir para muita gente um significado muito diferente daquele experimentado por quem dispõe de recursos suficientes para tratar o jogo apenas como diversão.

O dinheiro movimentado pelo setor tampouco pode ser analisado somente pela dimensão das cifras, porque aquilo que aparece nas estatísticas como faturamento necessariamente possui outra ponta, formada pelo dinheiro depositado por milhões de jogadores, e é justamente essa origem que torna insuficiente o argumento de que as apostas devem permanecer simplesmente porque passaram a financiar clubes, publicidade, empresas e arrecadação pública, como se a importância econômica adquirida por uma atividade impedisse a sociedade de reconsiderar sua conveniência.

A proibição certamente não encerrará o problema, pois operadores clandestinos continuarão tentando alcançar o mercado brasileiro e o governo terá de demonstrar capacidade para bloquear plataformas ilegais, acompanhar movimentações financeiras e impedir que a publicidade encontre maneiras disfarçadas de continuar chegando aos apostadores, sob o risco de retirar de cena as empresas submetidas às regras nacionais e entregar parte desse público a organizações que não obedecem regra alguma.

Ainda assim, reconhecer a dificuldade de executar uma decisão não significa negar a necessidade de tomá-la, sobretudo quando se percebe que a discussão deixou de ser sobre o direito de alguém fazer uma aposta ocasional e passou a envolver uma estrutura capaz de acompanhar uma pessoa durante todo o dia, oferecer novas oportunidades imediatamente depois de cada perda e transformar a esperança de recuperar o dinheiro na razão para arriscar ainda mais.

Talvez o maior mérito da decisão esteja justamente em interromper a ideia, aceita com espantosa naturalidade nos últimos anos, de que toda atividade economicamente poderosa deve permanecer intocável desde que produza impostos suficientes, pois também cabe ao poder público reconhecer o momento em que a arrecadação obtida deixa de compensar aquilo que uma determinada atividade cobra da sociedade.

Fabricio Correia é escritor e jornalista. Escreve com regularidade neste espaço.

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