Foto: Reprodução

Café quente, pão de queijo: mesa posta e um papagaio pregando diálogo para uma nova política

Era cedo. A manhã aqui em casa seguia com sua rotina habitual, crianças com pressa, faltaram a escola, a babá perdida entre os dois andares da casa, e eu lendo notícias pipocando entre uma fatia de pão e outra. Até que o vice-presidente, Geraldo Alckmin, anunciado pelo Louro Mané, apareceu na Globo, no estúdio do “Mais Você”, ladeado por Ana Maria Braga e o jornalista César Tralli. Falava-se de economia. Mais especificamente, da tarifa de 50% imposta por Donald Trump aos produtos brasileiros. O cenário, para dizer o mínimo, era insólito, mas apenas na superfície.

No fundo, quando vi aquela imagem sabia que ela dizia muito sobre o Brasil de 2025. Um país que tenta, entre escombros, reaprender a linguagem da política. Uma nação cansada da gritaria dos extremos, da brutalidade travestida de franqueza, da demolição sistemática da convivência pública. Depois de anos convivendo com um ex-presidente que transformou o ódio em plataforma e a ignorância em bandeira, o gesto de sentar à mesa e explicar, sem berro, torna-se quase revolucionário.

Não se trata apenas de comunicação institucional. Há ali, naquela cena, uma escolha de mundo. A televisão, tantas vezes subestimada, volta a ser palco de um gesto simbólico. O vice-presidente Geraldo Alckmin, político do diálogo e de trajetória longuíssima, entra no cenário mais afetivo da TV brasileira não para surfar na popularidade, mas para dar nome às coisas, traduzir o imbróglio diplomático, oferecer ao público um fio de clareza. E faz isso com doçura. Sem caricatura, sem condescendência.

Há algo de profundamente pedagógico e afetivo nessa escolha. Em um Brasil ainda marcado pelas trincheiras da polarização, onde o debate virou duelo e o contraditório virou ofensa, levar a política para um espaço de escuta, de acolhimento, é uma tentativa delicada de reumanizar o ofício de governar. E isso importa. Porque, enquanto o bolsonarismo usou a força do grito para incendiar o país por dentro, iniciativas como essa, por mais sutis que pareçam, buscam apagar incêndios com paciência.

É claro que haverá quem ria da cena. “Só no Brasil um papagaio comenta tarifas comerciais”, zombaram nas redes. Mas é justamente esse o ponto: o Brasil é, há muito, um país que comunica pelo afeto. Que aprendeu política com novelas, que debate economia entre uma piada e um café. Ignorar isso é não entender o que nos move.

A pedagogia do ódio foi eficaz porque foi próxima. Entrou pela porta da frente, pela linguagem simples, pelo apelo à emoção e até nos ambientes onde se expropriou da verdadeira fé. A reação a ela, se quiser ser duradoura, precisa usar o mesmo caminho mas com outro conteúdo. Com escuta, empatia e disposição da minha tia Waldete, da minha amada Itajubá, para costurar um pano já gasto, e não permitir que ele rasgue.

Geraldo Alckmin, ao ocupar aquele espaço de afeto, não estava fugindo da complexidade. Estava dizendo, em alto e bom som: “vamos tentar de novo?”. O nosso anestesista valeparaibano, do interior, de Pindamonhangaba a mesa com Ana Maria mostrou a todo pais que é possível fazer política sem insulto, sem performance bélica, sem ódio.

Longe de ser repetitivo, reitero, a imagem de um político falando de comércio exterior ao lado de um papagaio de pelúcia pode parecer improvável. Mas é também uma metáfora generosa do que o Brasil precisa neste momento: menos rigidez, mais escuta. Menos trincheira, mais mesa posta. Não será fácil. Eleições em 2026 se avizinham. Há ainda muito entulho emocional a remover. Mas aquele café da manhã inusitado talvez tenha sido, ainda que discretamente, o primeiro gole de um país que está tentando acordar de um surto coletivo.

Fabrício Correia é escritor, jornalista, historiador e professor universitário.

 

 

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