A crise política que vinha se acumulando nos bastidores do Morumbi ganhou forma institucional nesta sexta-feira (16). Depois de semanas de pressão interna e erosão de apoios, o Conselho Deliberativo do São Paulo aprovou o prosseguimento do impeachment de Julio Casares e determinou seu afastamento da presidência do clube. A votação abriu uma nova fase de instabilidade administrativa, com mudança imediata no comando e um desfecho que, agora, depende da Assembleia Geral dos associados.
O placar foi expressivo. Ao fim de cerca de duas horas de sessão no Salão Nobre do Morumbi, 188 conselheiros votaram a favor do impeachment, 45 se posicionaram contra o afastamento e dois votos foram registrados em branco. O número superou com folga o mínimo político necessário para que a pauta avançasse: a oposição precisava de 171 votos e, no total, 223 conselheiros participaram da deliberação, entre presenças físicas e conexões online.
O caminho que levou à votação teve um capítulo decisivo fora do clube. No início da semana, a Justiça de São Paulo foi acionada por um grupo de sócios e conselheiros e determinou que houvesse votação online, além de fixar o quórum mínimo em dois terços do Conselho. A decisão também alterou o percentual exigido que havia sido estabelecido pela presidência do órgão: Casares, antes do afastamento, havia fixado a referência em 75% dos membros, parâmetro revertido judicialmente. O resultado foi uma sessão com participação ampliada e regras definidas sob forte escrutínio.
Com o afastamento de Casares, a presidência passa a ser ocupada interinamente pelo vice Harry Massis Júnior, de 80 anos. Empresário, ele é fundador da rede de estacionamentos que leva seu sobrenome. A mudança não encerra o processo: a etapa considerada definitiva acontece na Assembleia Geral de sócios adimplentes, instância final do impeachment. Nessa votação, a regra é maioria simples, e o que está em jogo é transformar o afastamento temporário em destituição permanente. Pelo estatuto do clube, a assembleia deve ocorrer dentro de até 30 dias.
O episódio expõe um São Paulo atravessado por disputas internas e por uma correlação de forças que se deslocou rapidamente. O Conselho, ao aprovar o prosseguimento do impeachment, dá um recado de desconfiança política e impõe ao clube um período de transição que mistura urgência administrativa com tensão de bastidores. Até a assembleia, o comando interino terá de administrar não apenas o cotidiano do futebol e da instituição, mas também a expectativa de uma torcida que acompanha, com impaciência, um roteiro que sai das quatro linhas e ameaça engolir o restante.

