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Crise no Digimais amplia temor no mercado e reacende sombras do caso Banco Master

A crise que derrubou o Banco Master deixou de ser um episódio isolado no sistema financeiro e passou a lançar luz sobre outras instituições de menor porte que operavam em ambiente de fragilidade. Entre elas, o Digimais, banco ligado ao empresário e líder religioso Edir Macedo, surge agora como novo foco de preocupação no mercado, cercado por suspeitas sobre a consistência de seus ativos, sua governança e o impacto potencial de um colapso sobre o Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Segundo informações reveladas em reportagem da revista piauí, o Digimais acumulava sinais de deterioração havia meses, em trajetória que lembrava, em vários aspectos, o modelo de funcionamento atribuído ao Banco Master. A instituição teria inflado o valor de fundos para melhorar artificialmente seu balanço, ampliando, com isso, a capacidade de emitir CDBs com remunerações muito acima das oferecidas por bancos mais sólidos, estratégia comum entre instituições que precisam captar recursos em ritmo acelerado para sustentar a própria liquidez.

O mercado passou a olhar o Digimais com ainda mais desconfiança depois da liquidação do Master pelo Banco Central. A razão é simples: a quebra em série de bancos pequenos e médios pode impor pressão bilionária ao patrimônio do FGC, mecanismo criado para proteger depositantes em aplicações de até R$ 250 mil por CPF e por instituição. No caso do Digimais, estimativas mencionadas na reportagem apontam patrimônio líquido negativo na casa de R$ 8,5 bilhões.

A semelhança com o enredo do Master não estaria apenas na política agressiva de captação. A reportagem aponta que o Digimais também aparece envolvido em questionamentos sobre venda de carteiras de crédito sem lastro suficiente. Um dos episódios destacados envolve o fundo EXP1, que teria desembolsado R$ 650 milhões na compra de carteiras consignadas do banco. Os documentos comprobatórios dos créditos, segundo o relato, demoraram meses para ser apresentados. Quando vieram à tona e foram submetidos a auditoria independente, parte expressiva dos contratos analisados não teria encontrado respaldo real, indicando a existência de créditos inexistentes.

Ainda de acordo com a apuração, o banco acabou admitindo que os créditos questionados não existiam e tentou substituir os ativos por outras carteiras. O fundo, porém, recusou a solução proposta e buscou reaver os recursos. O caso ganhou contornos ainda mais graves quando a fraude passou a ser associada ao mesmo ecossistema de operadores e estruturas que já orbitavam o escândalo do Banco Master.

A conexão entre as duas histórias vai além da coincidência temporal. A reportagem sustenta que Digimais e Master compartilhavam características operacionais, interlocutores do mercado e até figuras ligadas à administração de fundos e corretoras. Um analista ouvido pela revista afirmou que as duas instituições tinham ativos semelhantes, gestores próximos e estruturas de administração com fortes pontos de contato. A presença de ex-executivos do Master em empresas relacionadas à engrenagem do Digimais reforçou a percepção, no mercado, de que não se tratava apenas de uma crise paralela, mas de uma extensão de práticas já conhecidas.

A sucessão de problemas também levou o Banco Central a cobrar mudanças internas. Em meio ao agravamento da crise, houve exigência para reforço da governança, com a entrada de nomes mais experientes no conselho de administração. A economista Daniella Marques Consentino, ex-presidente da Caixa, chegou a assumir a presidência do colegiado, mas deixou o posto meses depois, acompanhada por outros conselheiros. A saída foi interpretada como mais um sinal de instabilidade numa estrutura que já sofria com perda de credibilidade.

Em outra frente, o controlador da instituição foi pressionado a injetar recursos para reforçar o caixa. O aporte, no entanto, teria sido acompanhado pela retirada de quantias muito superiores antes mantidas no banco, movimento que, na prática, reduziu a efetividade do socorro e manteve elevado o risco sistêmico.

A crise financeira passou a esbarrar também em cálculos políticos. Ligado à Igreja Universal e ao partido Republicanos, o Digimais não é visto apenas como um banco em dificuldade, mas como peça de uma engrenagem com influência sobre setores religiosos e partidários. Nos bastidores de Brasília e do mercado, a avaliação descrita pela reportagem é que uma eventual intervenção mais dura poderia produzir ruído político relevante, sobretudo em ambiente pré-eleitoral.

Esse componente ajuda a explicar por que o caso é acompanhado com tanta cautela. O receio de agentes do mercado é que a demora em decisões técnicas, sob pressão política, repita o roteiro que cercou o Master. Na avaliação de especialistas, prolongar artificialmente a sobrevida de uma instituição combalida pode ampliar o custo final da crise e espalhar insegurança para além do nicho bancário.

 

 

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