Físico, professor, pesquisador e uma das vozes mais reconhecidas na defesa da ciência brasileira, Ricardo Galvão construiu uma trajetória marcada pela universidade, pela pesquisa e pela gestão de algumas das instituições científicas mais importantes do país, entre elas o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o INPE, e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq. Como deputado federal, levou para o Congresso Nacional uma experiência acumulada durante décadas e assume também a responsabilidade de representar politicamente a Região Metropolitana do Vale do Paraíba, território que concentra instituições estratégicas como INPE, ITA, DCTA e Cemaden.
Em entrevista a Fabrício Correia no programa Conversa de Bastidores, da Jovem Pan São José dos Campos, Galvão falou sobre a decisão de trocar a presidência do CNPq pelo mandato parlamentar, os desafios para transformar produção científica em inovação, a necessidade de aproximar universidades e empresas, o financiamento da pesquisa, a proteção do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, a economia verde, os conflitos ambientais no Congresso e o papel do Brasil diante das tensões geopolíticas nas Américas.
1. Depois de uma carreira essencialmente acadêmica, da direção do INPE e da presidência do CNPq, como foi tomar a decisão de deixar essa trajetória para assumir um mandato na Câmara dos Deputados?
Ricardo Galvão: Não foi uma decisão fácil. Minha carreira sempre esteve ligada à academia e eu estava muito satisfeito no CNPq, participando do processo de reconstrução do apoio à ciência brasileira. Tive muitas dúvidas e conversei com a ministra Luciana Santos e com a ministra Marina Silva. Foi Marina quem apresentou um argumento decisivo: eu havia recebido mais de 40 mil votos, muitos deles vindos da comunidade acadêmica, e não assumir o mandato naquele momento seria uma desconsideração com essas pessoas. Isso pesou muito na minha decisão e hoje estou satisfeito por ter assumido essa responsabilidade.
2. Sua atuação está apoiada em ciência, meio ambiente e inovação. Como conciliar essas grandes pautas nacionais com a responsabilidade de representar o Vale do Paraíba em Brasília?
Ricardo Galvão: Essa conciliação acontece de maneira bastante natural porque o Vale do Paraíba possui enorme importância científica e tecnológica para o Brasil. Temos instituições como INPE, DCTA, Cemaden e ITA, além de um setor industrial altamente tecnológico. A questão ambiental também é fundamental para a região. Já estamos trabalhando em assuntos diretamente relacionados aos municípios, como a discussão sobre a termelétrica em Caçapava e demandas de Paraibuna. Quero manter uma atuação nacional forte sem deixar desassistida a região que me acolheu e na qual construí grande parte da minha trajetória profissional e familiar.
3. O que a população pode esperar de sua atuação na Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação da Câmara?
Ricardo Galvão: Uma das prioridades é defender os recursos destinados à ciência e garantir que sejam efetivamente utilizados para essa finalidade. Estamos trabalhando intensamente na proteção do Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o FNDCT, e já conseguimos impedir iniciativas que pretendiam direcionar esses recursos para outras áreas. Também destinei emendas para fortalecer o monitoramento da Mata Atlântica realizado pelo INPE e temos trabalhado para ampliar o financiamento da Agência Espacial Brasileira. Ciência precisa de planejamento, continuidade e recursos.
4. Por que o senhor decidiu apresentar um projeto para isentar de Imposto de Renda os valores recebidos por cientistas brasileiros em premiações?
Ricardo Galvão: Porque existe uma distorção que precisa ser corrigida. Quando um cientista brasileiro recebe determinados prêmios nacionais ou internacionais, pode pagar até 27,5% de Imposto de Renda sobre aquele valor. Temos o exemplo da professora Mariângela Hungria, que recebeu uma das mais importantes premiações internacionais ligadas à alimentação e precisou pagar cerca de R$ 750 mil em impostos, mesmo destinando o prêmio à pesquisa e ao incentivo à participação de mulheres na ciência. Se existem tratamentos específicos para premiações em outras áreas, precisamos reconhecer também o mérito científico. O projeto procura corrigir essa injustiça.
5. O Brasil produz ciência em alto nível, mas ainda encontra dificuldades para transformar conhecimento em inovação. O que precisa mudar?
Ricardo Galvão: Esse é um dos nossos grandes desafios. O Brasil ocupa posição muito relevante na produção científica mundial, mas aparece muito atrás quando analisamos os indicadores de inovação tecnológica. Nossa industrialização foi historicamente construída com forte dependência da importação de tecnologia. O Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação foi criado justamente para aproximar universidades, centros de pesquisa e empresas, mas ainda existem barreiras burocráticas e interpretações jurídicas que dificultam essa integração. Estamos trabalhando na Comissão de Ciência e Tecnologia, inclusive em uma subcomissão conduzida pelo deputado Vitor Lippi, para identificar e remover esses obstáculos. Precisamos transformar o conhecimento produzido nas universidades em desenvolvimento tecnológico, empresas, empregos e riqueza para o país.
6. Como conciliar desenvolvimento econômico e preservação ambiental sem cair nos extremos de impedir qualquer empreendimento ou permitir tudo em nome do crescimento?
Ricardo Galvão: A resposta está no desenvolvimento sustentável e na economia verde. Já existem experiências no próprio agronegócio mostrando que produtividade e sustentabilidade podem caminhar juntas, como os sistemas de integração entre lavoura, pecuária e floresta. As cidades e as indústrias também precisam avançar nessa direção. Em São José dos Campos, por exemplo, considero que durante muitos anos faltou maior compromisso das administrações municipais com questões como coleta seletiva e soluções ambientalmente sustentáveis para áreas como o Banhado. Preservação ambiental não precisa ser inimiga do desenvolvimento econômico; ao contrário, cada vez mais ela será uma condição para o desenvolvimento.
7. Como defender uma agenda ambiental firme dentro de um Congresso marcado por negociações com forças políticas que muitas vezes pensam de maneira oposta?
Ricardo Galvão: É uma disputa muito difícil. O governo federal conseguiu avanços importantes, principalmente na redução do desmatamento da Amazônia, mas existe dentro do Congresso uma força muito grande contrária a determinadas políticas ambientais. O debate político faz parte da democracia, mas a sociedade também precisa compreender que suas escolhas eleitorais têm consequências. Quando elegemos representantes que negam evidências científicas ou tratam a proteção ambiental como obstáculo, isso se reflete diretamente nas decisões tomadas pelo Parlamento.
8. Como o senhor observa o papel do Brasil diante das tensões geopolíticas envolvendo Venezuela, Estados Unidos e o restante da América Latina?
Ricardo Galvão: Vejo esse cenário com muita preocupação. Isso não significa defender governos autoritários ou deixar de reconhecer problemas democráticos existentes em qualquer país, mas precisamos rejeitar intervenções estrangeiras e violações da soberania dos países latino-americanos. Existem interesses estratégicos e econômicos muito fortes envolvidos nessas disputas, especialmente relacionados à energia e ao petróleo. O Brasil, pela sua dimensão e importância regional, precisa manter uma política externa soberana, responsável e muito atenta às transformações geopolíticas que estão acontecendo.
9. No quadro “Vai e Vem”, cinco respostas rápidas: por que escolheu a Física; como foi seu primeiro dia no Congresso; qual é a relação entre fé e ciência; qual foi sua maior alegria acadêmica; e que Brasil deseja ajudar a construir?
Ricardo Galvão: Escolhi a Física por causa de um livro de George Gamow que ganhei ainda no colegial e que apresentava ideias sobre relatividade e mecânica quântica; aquilo me fascinou completamente. Meu primeiro dia no Congresso foi uma experiência de contrastes: fui muito bem recebido, mas também fiquei assustado com a dinâmica e com algumas coisas que presenciei. Sobre fé e ciência, sou cientista, tenho fé e acredito em Deus; vejo a fé como uma espécie de semente de inspiração que nos impulsiona na busca pelo conhecimento. Uma das maiores alegrias da minha carreira acadêmica foi receber, em 1985, o Prêmio Internacional de Física do Centro Internacional de Física Teórica, na Itália. E o Brasil que desejo ajudar a construir é sustentável, socialmente justo, equânime e capaz de formular suas políticas públicas com base no conhecimento científico e na cultura.
10. Depois de tantos anos dedicados à ciência, qual é, afinal, o sentido que o senhor pretende dar ao mandato parlamentar?
Ricardo Galvão: Quero contribuir para a construção de um país sustentável, socialmente justo e equânime, no qual as políticas públicas sejam orientadas pelo conhecimento científico e pela cultura. Minha trajetória sempre esteve ligada à defesa da ciência, e agora tenho a oportunidade de levar essa experiência para o Parlamento, trabalhando para que o conhecimento produzido no Brasil tenha participação efetiva nas decisões que definem o futuro do país.

