A crise criada em torno de Paulo Gonet já não pode ser tratada como um ruído lateral da investigação sobre Daniel Vorcaro, porque quando o procurador-geral da República aparece citado em mensagens de tom pessoal, com referências a “saudade”, proximidade e apoio, e depois assume a linha de frente para pedir a nulidade justamente da investigação que trouxe esse material à luz, a discussão deixa de ser apenas jurídica e passa a tocar diretamente a credibilidade de uma instituição que não pode se permitir qualquer sombra de atuação em causa própria.
Ninguém sério está dizendo que amizade é crime, que afeto é prova de ilícito ou que uma mensagem carinhosa transforma automaticamente uma autoridade em suspeita de qualquer delito, mas também ninguém minimamente comprometido com a integridade institucional pode fingir que é normal o chefe da Procuradoria-Geral da República analisar, contestar e tentar invalidar uma apuração na qual seu próprio nome surge associado ao principal personagem investigado, porque a imparcialidade não se mede apenas pela ausência de culpa penal, mede-se também pela distância objetiva necessária para que nenhuma decisão pareça contaminada por interesse pessoal, desconforto próprio ou necessidade de contenção de danos.
Gonet pode reunir pareceres, doutrina, precedentes, argumentos regimentais e toda a arquitetura jurídica possível para sustentar que André Mendonça extrapolou suas atribuições, pode afirmar que o aprofundamento das diligências dependia do plenário do Supremo e pode defender que a apuração envolvendo Alexandre de Moraes deveria ter seguido outro rito, mas nenhum desses argumentos elimina a pergunta central, simples e devastadora, que permanece de pé diante da opinião pública: por que o próprio Gonet decidiu enfrentar uma investigação que também o alcança nominalmente, em vez de se afastar dessa análise e entregar o caso a alguém sem qualquer vínculo pessoal com os fatos revelados?
Esse é o ponto que torna o episódio indecente do ponto de vista institucional, não porque já exista prova de crime, não porque se possa decretar culpa por mensagem ou fotografia, mas porque a República não pode funcionar como um clube de relações pessoais no qual autoridades aparecem em conversas privadas com investigados e depois continuam decidindo sobre o destino das próprias investigações como se nada tivesse acontecido, como se suspeição fosse uma palavra destinada apenas aos adversários, como se aparência de conflito de interesses fosse frescura acadêmica e como se a confiança pública pudesse sobreviver à repetição dessas cenas sem sofrer dano profundo.
A atitude mais responsável seria o afastamento de Gonet dessa frente específica, não como confissão de culpa, não como punição antecipada, mas como gesto elementar de preservação institucional, porque quem ocupa a chefia do Ministério Público precisa compreender que em determinados momentos a própria autoridade se fortalece quando recua, quando entrega a análise a outro procurador e quando demonstra que não pretende julgar a validade de uma investigação que expõe mensagens capazes de atingir sua própria imagem.
O problema brasileiro começa justamente quando os donos do poder passam a acreditar que a legalidade formal basta para salvar qualquer situação, porque instituições também vivem de confiança, coerência, prudência e exemplo, e quando essas quatro coisas desaparecem, sobra apenas um aparato jurídico sofisticado tentando convencer a população de que aquilo que parece errado deve ser aceito porque alguém encontrou uma tese capaz de sustentá-lo.
Se Gonet realmente deseja proteger a Procuradoria-Geral da República, preservar sua autoridade e impedir que qualquer decisão futura seja recebida como tentativa de autoproteção, deveria ser o primeiro a reconhecer que sua presença nesse episódio passou a ser parte do problema e que nenhuma manifestação técnica, por mais elaborada que seja, conseguirá apagar a impressão produzida por um procurador-geral citado em mensagens de proximidade com Vorcaro e imediatamente empenhado em invalidar a investigação que tornou essas mensagens públicas.
No fim, talvez seja exatamente essa a dimensão mais grave do caso, porque a República brasileira já conviveu demais com autoridades convencidas de que podem permanecer dentro de qualquer processo, de qualquer investigação e de qualquer decisão mesmo quando a prudência manda sair de cena, e quando a toga, o cargo ou a função passam a ser usados como escudo contra a percepção óbvia de conflito, o problema deixa de ser apenas jurídico e se transforma em crise moral.
A verdadeira saudade que este episódio desperta, portanto, não é a registrada nas mensagens de Vorcaro, mas a saudade de uma vida pública em que autoridades compreendiam que certas situações exigem recato, afastamento e limite, porque quem precisa explicar demais por que pode continuar decidindo sobre um caso que o envolve talvez já tenha passado do ponto em que deveria simplesmente deixar de decidir.
Fabrício Correia é escritor, historiador e analista político responsável pela equipe do portal Conversa de Bastidores.

