Foto: Reprodução

Governo adota silêncio estratégico após prisão de Bolsonaro para evitar crise com EUA

Diante da decisão do ministro Alexandre de Moraes, do STF, que determinou a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro, o Palácio do Planalto orientou seus principais interlocutores a manterem discrição. A estratégia foi coordenada pela Secretaria de Comunicação da Presidência, sob o comando do ministro Sidônio Palmeira, que recomendou moderação e absoluto cuidado nas manifestações públicas a respeito do caso.

A avaliação no núcleo do governo é clara: qualquer manifestação mais enfática poderia alimentar a narrativa de perseguição política sustentada por aliados de Bolsonaro. Há ainda o receio de que uma reação desmedida sirva como combustível para radicalização das bases bolsonaristas, além de comprometer, de forma delicada, a já frágil relação com os Estados Unidos.

Esse último ponto se tornou central na condução da crise. Segundo integrantes do governo brasileiro, existe a possibilidade concreta de que a prisão do ex-presidente seja instrumentalizada por Trump para tensionar ainda mais as negociações comerciais, ou até justificar sanções adicionais contra o Brasil. Em razão disso, o Planalto tenta, a todo custo, despolitizar o episódio e evitar qualquer gesto que possa soar provocativo ou intervencionista.

Bolsonaro foi preso após ter violado medidas cautelares impostas pelo STF, aparecendo em vídeos transmitidos por apoiadores durante manifestações do dia 3 de agosto. Ele estava proibido de usar redes sociais, ainda que indiretamente. A infração foi considerada deliberada por ministros do governo Lula, que enxergam no gesto do ex-presidente uma tentativa de reacender a militância e reforçar o discurso de que é alvo de retaliações políticas, especialmente às vésperas de uma possível condenação no inquérito sobre a tentativa de golpe.

Diante desse quadro, líderes governistas defendem que o episódio deve ser tratado como uma questão jurídica — e não política — e que qualquer eventual exploração do caso fique restrita à base militante do PT, jamais à Esplanada dos Ministérios. A ordem é manter o foco na gestão e nos temas de Estado, especialmente na interlocução com Washington sobre as tarifas que entram em vigor ainda nesta semana.

Um aliado próximo de Lula resumiu o clima interno com uma metáfora: “o leite já está derramado”. Para ele, a prioridade agora é não espalhá-lo ainda mais. A temperatura entre bolsonaristas e o Judiciário já é alta, e o governo prefere não se colocar no centro dessa polarização.

Além disso, fontes do Planalto destacam que havia sinais positivos no ambiente diplomático, como a inclusão de quase 700 produtos brasileiros na lista de exceções do tarifaço americano. E reforçam que Lula sai politicamente mais fortalecido desse confronto, desde que mantenha o tom sereno e institucional. A linha adotada, portanto, é clara: cautela, silêncio e foco na estabilidade.

 

WhatsApp
Facebook
Twitter