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Guaratinguetá no eixo da inovação da Unesp

Guaratinguetá passou a ocupar lugar de destaque numa estratégia que pretende transformar os colégios técnicos da Unesp em territórios reais de tecnologia, criação e pesquisa desde o ensino médio. A movimentação, alinhada às metas do Governo de São Paulo para fortalecer inovação na educação técnica, ganhou corpo com a aproximação da Agência Unesp de Inovação (AUIN) das três unidades: os Colégios Técnicos Industriais (CTIs) de Guaratinguetá e Bauru e o Colégio Técnico Agrícola (CTA) de Jaboticabal. O plano já se materializa em ações como hackathons internos, implantação de FabLabs e presença inédita em eventos nacionais voltados ao ensino técnico.

A proposta, segundo o diretor da AUIN, Saulo Guerra, é motivar os estudantes a enxergarem desde cedo dois caminhos possíveis: o empreendedorismo — com ideias que podem virar produto — e a graduação, com a permanência desses jovens na própria universidade. A AUIN entende que falar com alunos mais novos é uma chance de atrair talentos e criar um vínculo antecipado com a vida acadêmica. Em Guaratinguetá, onde o CTI está vinculado à Faculdade de Engenharia e Ciências (FEG), essa lógica se fortalece por um motivo simples: o estudante circula no ambiente universitário ainda no ensino médio, convivendo com a cultura de laboratório, pesquisa e solução de problemas reais.

No CTI, o trabalho com inovação já vinha sendo conduzido por meio de disciplinas e projetos nos cursos integrados ao ensino médio — eletrônica, informática e mecânica —, mas a chegada do suporte da AUIN amplia o alcance. A avaliação é de que a parceria não traz apenas recursos financeiros: chega junto um pacote de orientação, capacitação e organização de ecossistema, algo capaz de mudar o fôlego dos projetos a médio e longo prazo.

O passo mais visível dessa nova fase é a implantação dos FabLabs. Com investimentos já disponibilizados, as unidades avançam na construção dos espaços e na compra de equipamentos. Os laboratórios devem contar com duas impressoras 3D — uma de tecnologia FDM e outra de impressão em resina — além de uma máquina CNC a laser para corte e gravação. A previsão é que as inaugurações ocorram em 2026, consolidando um ambiente voltado ao desenvolvimento de protótipos, soluções e experimentos com padrão profissional.

A cultura de inovação também está sendo estimulada por meio de desafios práticos. No ano passado, a AUIN propôs aos colégios técnicos a realização de um hackathon — maratona em que equipes precisam desenvolver soluções em curto espaço de tempo e apresentar protótipos funcionais. O CTA de Jaboticabal foi o primeiro a realizar a dinâmica: foram três dias de trabalho, com desafios como a criação de um chatbot para a própria AUIN e um software para conectar empresas parceiras e alunos. A experiência foi descrita como intensa e formativa, por exigir trabalho em equipe, pressão e entrega. A proposta será reproduzida nos CTIs de Bauru e, com atenção especial, em Guaratinguetá entre este e o próximo ano.

Em 2025, a iniciativa avançou também para fora dos muros. A Unesp participou pela primeira vez da Feira Tecnológica do Centro Paula Souza (Feteps), um dos principais eventos do ensino técnico no país, e levou projetos selecionados na categoria de instituições parceiras. As três unidades se inscreveram e, entre os classificados, três propostas foram do CTI de Bauru — um resultado considerado expressivo pela equipe. Entre as ideias apresentadas estava um sistema de Diagnóstico Hematológico Inteligente, que combina biologia e inteligência artificial para automatizar a análise de exames de sangue, com acurácia aproximada de 90%, ainda em fase de aprimoramento por limitação de amostras. O grupo também levou soluções como o Cisternax, para arrefecimento de ambientes usando captação de água da chuva, e o Ergo Ladder, uma plataforma elevatória voltada ao acesso a macas hospitalares.

A AUIN acompanha de perto não só a criação, mas o caminho de amadurecimento dessas ideias: a intenção é que os melhores projetos ganhem orientação e proteção, inclusive na frente de propriedade intelectual, com potencial de se tornarem tecnologias aplicáveis dentro da própria Unesp e, no futuro, na sociedade. Para a Agência, construir um ecossistema mínimo de inovação dentro dos colégios técnicos significa criar condições para que a criatividade dos alunos encontre estrutura — laboratório, mentoria, repertório e oportunidade de validação.

Os Colégios Técnicos da Unesp oferecem ensino médio integrado a cursos técnicos em áreas como agropecuária e informática, mecânica, eletroeletrônica, eletrônica e informática industrial. As três unidades são vinculadas a faculdades da universidade: em Bauru, o CTI está ligado à Faculdade de Engenharia (FEB); em Guaratinguetá, à FEG; e, em Jaboticabal, o CTA é ligado à Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV). Esse contato cotidiano com o ambiente universitário — graduação e pós-graduação por perto — é visto como elemento decisivo para que o aluno amplie horizontes e escolha com mais clareza seus próximos passos.

A lógica é direta: com FabLabs, hackathons, participação em feiras e incentivo ao PIBIC Júnior, Guaratinguetá entra em uma rota em que o ensino técnico não é apenas formação para o emprego imediato, mas um portal de entrada para a pesquisa aplicada, para a inovação e para a universidade. O que está em jogo, no fim, é a criação de uma geração que aprende cedo a pensar projeto, protótipo, impacto e solução — e que, com estrutura adequada, pode transformar sala de aula em laboratório e laboratório em futuro.

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