“Já estou com saudades de você!” é uma das mensagens atribuídas ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, que aparecem no material analisado pela Polícia Federal sobre as relações mantidas pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, num conjunto de conversas que ganha dimensão política e institucional porque envolve justamente o chefe da instituição responsável por se manifestar perante o Supremo Tribunal Federal em desdobramentos da investigação.
Segundo o relatório da PF, a interlocução entre Gonet e Vorcaro ocorreu por intermédio do advogado Ciro Soares e começou ainda em abril de 2024, quando Ciro escreveu ao banqueiro “Amizade é tudo viu irmão” e, em seguida, afirmou: “Gonet é firme”, numa conversa que naquele momento também envolvia assuntos relacionados a Jarbas Soares Júnior, ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais.
A aproximação reaparece de maneira mais explícita no ano seguinte, durante a preparação de um fórum jurídico em Londres financiado pelo Banco Master, quando Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia ao lado de Gonet acompanhada da mensagem “Liga aqui. Ele quer falar com você”, enquanto, em outra conversa, encaminhou a frase “Já estou com saudades de você! Estou embarcando para Roma. Manda essa mensagem para ele”, afirmando, conforme registrado pela PF, que a mensagem vinha de Gonet.
As conversas avançaram também para a viagem a Londres, e Ciro informou a Vorcaro que Gonet perguntara se o filho poderia acompanhá-los, recebendo do banqueiro a resposta “Óbvio, né”, enquanto posteriormente uma funcionária questionou Vorcaro sobre quais convidados estavam aprovados para viajar “com despesas pagas por nós”.
De acordo com a PF, Vorcaro não concordou com todos os nomes apresentados, mas ressalvou “Pedro e Ciro ok”, referência que os investigadores relacionam a Pedro Gonet, filho do procurador-geral, e Ciro Soares, cujas despesas seriam custeadas para a viagem.
O evento acabou não sendo realizado, razão pela qual a viagem prevista não se concretizou, e Ciro afirma que não existia segredo na relação de convidados, sustentando que os participantes constavam de documentos de um seminário aberto ao público e que não existe ilegalidade no convite a autoridades, empresários, advogados ou palestrantes para eventos dessa natureza.
O caso assume peso adicional porque Gonet aparece também em outro ponto da investigação, no qual Vorcaro teria solicitado a um interlocutor a atuação de “Andrei e Paulo” em seu favor, referências que a investigação considera poderem estar relacionadas ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral Paulo Gonet.
O ministro André Mendonça, relator do inquérito do Banco Master no Supremo, determinou que a Procuradoria-Geral da República se manifeste em cinco dias sobre o documento da Polícia Federal, criando uma situação institucional que exige esclarecimentos especialmente cuidadosos, uma vez que o nome do próprio chefe da PGR aparece no material submetido à análise do órgão.
Até a publicação da reportagem original, Gonet não havia se manifestado sobre as mensagens, e o conteúdo conhecido até agora não demonstra, isoladamente, que o procurador-geral tenha praticado qualquer ilegalidade ou atendido a eventual pedido de Vorcaro, mas coloca sob escrutínio a natureza da relação revelada pelas conversas e as circunstâncias em torno do convite para que seu filho viajasse com despesas previstas pelo Banco Master.

