Mesmo após anúncio de cessar-fogo entre Washington e Teerã, ofensiva israelense prossegue contra o Hezbollah e aprofunda crise humanitária no território libanês
O Líbano amanheceu, mais uma vez, como território da exceção. Fora do acordo de cessar-fogo firmado entre Estados Unidos e Irã, o país seguiu sob bombardeios israelenses nesta quarta-feira, em uma escalada que agravou ainda mais a crise humanitária e lançou dúvidas sobre a efetividade de qualquer tentativa de contenção regional do conflito.
A exclusão do território libanês da trégua foi confirmada por Israel e por autoridades americanas. Em pronunciamento televisionado, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou que o Líbano não integra o acordo e declarou que as forças israelenses continuam atuando com intensidade contra o Hezbollah. A mesma posição foi reiterada por integrantes do governo dos Estados Unidos, entre eles a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, e o vice-presidente JD Vance.
Segundo Vance, a interpretação de que o cessar-fogo incluiria o Líbano decorreu de um “mal-entendido legítimo”. A avaliação, no entanto, não impediu que a situação se deteriorasse rapidamente em solo libanês.
Na noite de quarta-feira, ataques atingiram os subúrbios do sul de Beirute, de acordo com transmissão ao vivo da Reuters. Ao longo do dia, pelo menos cinco ofensivas consecutivas sacudiram a capital, lançando colunas de fumaça sobre a cidade. Militares israelenses informaram ter realizado o maior ataque coordenado da guerra, mirando mais de 100 centros de comando e instalações militares do Hezbollah em Beirute, no Vale do Bekaa e no sul do Líbano, em um intervalo de apenas dez minutos.
O saldo humano da nova ofensiva é devastador. De acordo com o serviço de defesa civil libanês, 254 pessoas morreram e mais de 1.100 ficaram feridas em todo o país. O maior número de vítimas foi registrado em Beirute, onde 91 pessoas morreram. O Ministério da Saúde libanês, por sua vez, divulgou um balanço preliminar de 182 mortos, ressaltando que o número ainda não é definitivo.
O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, classificou o cenário como “horrível” e afirmou que a dimensão da matança e da destruição no Líbano desafia a crença, sobretudo por ocorrer poucas horas após o anúncio de cessar-fogo com o Irã.
Os ataques reacenderam o debate sobre a fragilidade dos esforços diplomáticos na região. O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, havia indicado que um cessar-fogo no Líbano era condição essencial para o entendimento entre seu país e os Estados Unidos. Na prática, porém, a continuidade dos bombardeios revelou que a trégua anunciada não alcançou uma das frentes mais sensíveis da guerra.
Este já é apontado como o dia mais mortal desde o início do conflito atual, deflagrado em 2 de março, quando o Hezbollah disparou contra Israel em apoio ao governo iraniano após a intensificação das hostilidades envolvendo Teerã, Washington e Tel Aviv.
Sem incluir o Líbano, o cessar-fogo parcial deixa aberta uma das feridas mais graves do Oriente Médio. E mostra que, em guerras de múltiplas frentes, uma paz incompleta pode ser apenas outro nome para a continuação da tragédia.

