Quando olho para Mônica Benício nesta eleição, procuro enxergá-la para além da tragédia que tornou seu nome conhecido em todo o Brasil, porque reduzi-la à memória de Marielle Franco seria retirar dela justamente aquilo que os últimos anos permitiram construir, uma identidade pública própria, nascida na Maré, amadurecida pela formação em arquitetura e urbanismo e levada à Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde exerce seu segundo mandato.
Interessa-me particularmente essa origem porque alguém que conhece a cidade a partir de suas margens compreende de maneira concreta o peso da moradia, do transporte, da segurança, da violência, das oportunidades e da presença desigual do Estado, enxergando questões que frequentemente chegam aos gabinetes convertidas em números depois de terem atravessado durante décadas a existência de milhões de brasileiros.
Também considero importante observar sua atuação em defesa das mulheres, dos direitos humanos, da população LGBTQIA+, da cultura e do direito à cidade, conjunto de pautas que acompanhou sua passagem pelo Legislativo carioca e que ajuda a compreender aquilo que pretende transportar para uma disputa de alcance estadual, agora diante das atribuições muito mais amplas reservadas ao Senado Federal.
Sua candidatura adquire outra dimensão justamente porque em 2026 serão escolhidos dois senadores por estado, cada qual para oito anos, numa Casa responsável não somente pela elaboração das leis, mas também por fiscalizar o Executivo, analisar indicações para funções fundamentais da República e exercer competências constitucionais capazes de interferir profundamente no equilíbrio institucional brasileiro.
Não ignoro que Marielle permanecerá para sempre ligada à sua biografia, porém prefiro olhar para aquilo que Mônica realizou depois daquela noite terrível, porque sobreviver não lhe concedeu automaticamente um mandato, formação política ou voz própria, elementos construídos durante os anos seguintes e que agora precisam ser submetidos ao mesmo escrutínio reservado a qualquer pessoa que pretenda ocupar uma das posições mais relevantes do Parlamento brasileiro.
É por esse percurso que considero sua candidatura digna de atenção nesta eleição, não pela obrigação sentimental de perpetuar uma memória, mas pelo significado de uma mulher criada na Maré atravessar as fronteiras sociais de uma cidade profundamente desigual, chegar ao Legislativo, construir sua própria identidade política e apresentar ao Rio a possibilidade de transportar essa experiência para o Senado, cabendo a cada eleitor examinar suas propostas, posições e atuação antes de decidir o próprio voto.
Fabrício Correia é escritor, historiador e analista político. Responsável pela agência de notícias Conversa de Bastidores.

