Foto: Divulgação

Morre Evanildo Bechara, membro da Academia Brasileira de Letras

Faleceu nesta quinta-feira (22), aos 97 anos, o filólogo, gramático e professor Evanildo Bechara, um dos maiores nomes do estudo da língua portuguesa no Brasil. Ele estava internado no Hospital Placi, em Botafogo, e morreu em decorrência de falência múltipla dos órgãos. A Academia Brasileira de Letras, da qual era membro desde 2001, confirmou a notícia. O velório está marcado para esta sexta-feira (23), no Petit Trianon, sede da ABL, no centro do Rio de Janeiro.

Natural de Recife e nascido em 1928, Bechara construiu um legado como um dos mais respeitados estudiosos do idioma no país, tendo sido referência para incontáveis professores, linguistas e estudiosos da língua portuguesa ao longo de décadas. Recebeu diversas homenagens ao longo da carreira, entre elas as medalhas José de Anchieta, de Honra ao Mérito Educacional e a Oskar Nobiling.

Em vida, não apenas publicou obras fundamentais — como a consagrada Moderna Gramática Portuguesa, lançada há 40 anos e recentemente relançada pela Nova Fronteira —, mas também influenciou a formação de gerações. Obras suas, como Lições de português pela análise sintática, seguem sendo adotadas em escolas e universidades, conhecidas pela profundidade e clareza com que apresentam conceitos fundamentais da sintaxe.

Bechara também desempenhou papel central na reforma ortográfica da língua portuguesa e colaborou ativamente com a Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ABL, que supervisiona publicações essenciais como o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) e o Dicionário da Língua Portuguesa (DLP).

Era professor emérito da Universidade Federal Fluminense e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, além de ter recebido o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade de Coimbra. Seu compromisso com a sistematização do ensino da língua o levou a conectar o rigor da pesquisa científica com a elaboração de materiais didáticos.

Em uma de suas últimas entrevistas, publicada em 2023, Bechara afirmou que sua maior contribuição foi organizar um conhecimento fragmentado e apresentar caminhos para sua aplicação no ensino: “Minha preocupação sempre foi ligar a pesquisa aos livros que chegam ao aluno”.

Desde jovem demonstrava interesse pela estrutura da língua. Aos 15 anos, conheceu pessoalmente o linguista Manuel Said Ali, que se tornaria seu mentor. Aos 17, publicou seu primeiro ensaio. E em 1954, passou a lecionar no tradicional Colégio Pedro II.

Colegas da ABL expressaram seu pesar. O presidente da instituição, Merval Pereira, destacou sua atuação como representante brasileiro na reforma ortográfica e o definiu como “o maior especialista em português que o país teve”.

A escritora Ana Maria Machado lembrou do professor que a ensinou na universidade e do acadêmico gentil e espirituoso com quem conviveu por mais de duas décadas na ABL. “Seu humor afiado e sua gentileza ficam na memória de todos nós.”

O filólogo Ricardo Cavaliere recordou episódios da convivência com Bechara, como a vez em que o mestre se incomodou com os estrangeirismos do aplicativo de navegação no carro. “Ele implicava com a palavra ‘reportado’. E ficou brincando: ‘Essa voz não vai parar nunca?’”, contou, rindo da lembrança.

Já o escritor e diplomata Edgar Telles Ribeiro exaltou sua humildade: “Sempre sorria com doçura, especialmente quando eu dizia que passei no vestibular graças aos seus livros”.

Evanildo Bechara deixa uma contribuição imensa à cultura e à educação brasileiras — e uma ausência sentida por todos os que amam e cultivam a língua portuguesa.

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