O aiatolá Ali Khamenei comandou o Irã por décadas sob a lógica da tutela religiosa sobre a política, restringindo liberdades, sufocando dissidências e projetando influência regional por meio de alianças que alimentaram tensões permanentes no Oriente Médio. Seu legado está longe de ser consensual e, para a maioria dos iranianos, foi marcado por medo e silenciamento.
Mas a ausência de luto, visto a sensação de liberdade momentânea, não transforma a ação militar estrangeira em virtude.
A experiência histórica ensina que a remoção violenta de um governante raramente resolve, por si, os dilemas estruturais de um Estado. A queda de uma figura central pode alterar o tabuleiro imediato, mas não reconfigura automaticamente instituições, mentalidades políticas ou equilíbrios sociais. Pelo contrário, intervenções externas tendem a produzir efeitos imprevisíveis: fortalecem setores nacionalistas, comprimem debates internos e oferecem às elites locais o discurso conveniente do cerco.
Estados Unidos e Israel alegam agir em nome da segurança, argumento que, no contexto regional, não pode ser descartado de forma leviana. Israel convive há décadas com ameaças explícitas vindas de Teerã. Washington enxerga no avanço do programa nuclear iraniano um risco estratégico. Essas percepções moldam decisões duras. Ainda assim, segurança legítima não equivale a carta branca para redefinir a soberania de outro país por meio de ataques diretos.
A ordem internacional moderna foi construída, após guerras devastadoras, sobre o princípio de que o uso da força deve ser exceção extrema, regulada e limitada. Quando grandes potências assumem o papel de árbitros armados da política interna de outros Estados, inauguram precedentes que ultrapassam o caso concreto. A regra que hoje se aplica a um adversário pode amanhã ser invocada por outros.
Não se trata de relativizar a natureza autoritária do regime iraniano. Tampouco de ignorar sua retórica hostil ou suas estratégias regionais. Trata-se de reconhecer que a estabilidade não nasce da eliminação física de líderes, mas de processos políticos internos, ainda que lentos e imperfeitos. Transformações duradouras exigem legitimidade social, não apenas superioridade militar.
Há também uma dimensão prática. Intervenções que pretendem enfraquecer regimes muitas vezes consolidam suas alas mais radicais. O sentimento de ameaça externa tende a reduzir o espaço das correntes reformistas e a reforçar discursos de resistência. A história do Oriente Médio é pródiga em exemplos nos quais a força externa, ao invés de moderar, intensificou antagonismos.
É possível condenar a repressão iraniana e, simultaneamente, criticar a opção por bombardeios como instrumento de reorganização política. A coerência moral não exige alinhamento automático com qualquer dos polos. Exige, antes, defesa consistente de princípios, entre eles, o respeito às normas que buscam conter a escalada permanente da guerra.
Não se trata de chorar por um aiatolá. Trata-se de preservar limites. Quando esses limites se dissolvem, a política internacional retorna a uma lógica em que a força substitui o direito e a exceção se converte em razão. Nenhuma região do mundo sai ilesa dessa transformação.
Fabrício Correia é escritor, historiador e licenciado em Geografia. É CEO da Kocmoc New Future, responsável pela agência de notícias, Conversa de Bastidores.

