As mensagens vazadas pela imprensa por meio dos relatórios da Policia Federal entre Jair e Eduardo Bolsonaro não são apenas um retrato íntimo de uma família desfeita. São o testemunho histórico daquilo que o bolsonarismo realmente foi: um projeto de poder pessoal que corroeu instituições, dividiu brasileiros, humilhou o país no cenário internacional e, agora, implode sob o peso da própria farsa.
O que se vê é a anatomia de um clã que, ao invés de representar o ideal de “Deus, pátria e família”, transformou-se numa caricatura grotesca desses valores. Pai e filho se insultam com palavrões, como se o destino do Brasil fosse extensão de uma briga doméstica. E não estamos diante de desavenças banais, mas de um parlamentar da República articulando, em Washington, sanções estrangeiras contra autoridades brasileiras,
um crime de traição à pátria em sua essência mais grave.
Mas Eduardo não é exceção; é sintoma. O bolsonarismo se organizou como uma empresa de família, onde cada membro tinha uma função a cumprir no teatro do poder. Flávio, o primogênito, foi o primeiro a mostrar que a herança do pai incluía rachadinhas e investigações criminosas contra desafetos, símbolo de um sistema em que a moralidade servia apenas para o discurso. Carlos, o “pitbull digital”, usou as redes sociais para espalhar ódio, fake news e ameaças, transformando o debate público em guerra suja. Michele, apresentada como “mãe amorosa da pátria”, encenou o verniz religioso que dava cobertura à corrupção das rachadinhas dentro do próprio gabinete. E até o completamente perdido Jair Renan, o “zero quatro”, virou vereador em Balneário Camboriú, caricatura de uma dinastia que nunca pretendeu servir ao país, mas sim garantir cargos, mordomias e poder hereditário.
No centro, Jair Bolsonaro: o patriarca que se apresentou como salvador, mas cuja principal obra foi colocar os filhos, a esposa e os aliados no centro da vida pública, tratando a República como extensão de sua casa. Sob seu comando, o Brasil viu o desmonte das políticas ambientais, o descrédito da ciência em plena pandemia, a militarização da máquina pública e a tentativa de golpe em 8 de janeiro. Tudo isso em nome de um projeto que não tinha outro norte senão a permanência de sua família no poder.
Hoje, o “mito” ruído mostra sua face mais cruel: não se tratava de salvar a pátria, mas de devorá-la. O lema “Deus, pátria e família” nunca passou de cortina de fumaça. O verdadeiro tripé era outro: poder, dinheiro e corrupção.
O bolsonarismo não caiu de pé; está se arrastando em praça pública, exposto por seus próprios integrantes. As mensagens entre Eduardo e Jair apenas confirmam aquilo que já estava escrito: não existe união familiar, projeto de nação, ou fé verdadeira. O que há é uma quadrilha travestida de governo, um clã que confundiu o Brasil com seu quintal e que, ao perder o poder, revela-se tão frágil quanto desonesto.
A destruição que deixaram não é apenas institucional. É também moral. Dividiram brasileiros entre “nós” e “eles”, cultivaram o ódio como método, desacreditaram a democracia e venderam ao mundo a imagem de um país governado por fanatismo, violência e ignorância. Agora, entregues à própria ruína, mostram que a tragédia do bolsonarismo não foi obra apenas de Jair, mas de cada membro dessa família que usou o Brasil como palco de ambição e vaidade.
Se há justiça histórica, ela se cumpre aqui: o bolsonarismo não será derrotado apenas pelas urnas ou tribunais, mas pela revelação íntima de que seu núcleo, a própria família Bolsonaro, era podre desde o início.
Fabrício Correia é escritor, jornalista, historiador e professor universitário. É CEO da Kocmoc New Future, responsável pela agência de notícias, Conversa de Bastidores.