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O peso das palavras: por que é preciso cobrar responsabilidade pública após a fala de Ratinho

A televisão brasileira construiu, ao longo de décadas, figuras populares que atravessaram gerações. Entre elas está o apresentador Ratinho, que há muitos anos ocupa um lugar familiar no imaginário nacional. Aos 70 anos, sua trajetória é inseparável de uma forma de comunicação direta, popular, muitas vezes espontânea. Esse histórico, no entanto, não o exime, pelo contrário, de responsabilidade diante das palavras que escolhe dizer em público.

A polêmica envolvendo suas declarações sobre a deputada Erika Hilton recoloca no centro do debate um tema que o Brasil ainda enfrenta com dificuldade: o respeito à identidade de gênero. Ao afirmar, em um programa de televisão, que a parlamentar “não é mulher”, o apresentador ultrapassou o limite da opinião pessoal e entrou no território da violência simbólica. Não se trata apenas de discordância política ou ideológica; trata-se da negação da identidade de uma pessoa e, por extensão, da dignidade de uma comunidade inteira.

É preciso dizer isso com clareza e também com respeito. Ratinho é um comunicador experiente, que construiu sua carreira dialogando com o público popular. Justamente por isso, suas palavras têm peso. Quando uma figura pública de grande audiência afirma algo que deslegitima a existência de pessoas trans, esse discurso não fica restrito a um estúdio de televisão. Ele reverbera nas escolas, nos ambientes de trabalho, nas famílias e, infelizmente, muitas vezes também nas agressões cotidianas.

O Brasil já ocupa, há anos, um lugar dramático nas estatísticas de violência contra pessoas trans. Não é apenas uma questão cultural ou moral; é uma questão de direitos humanos. Quando uma pessoa trans tem sua identidade negada publicamente, reforça-se um ambiente onde a exclusão se torna normalizada.

É justamente por isso que cobrar responsabilidade não significa “cancelar” alguém. Cobrar responsabilidade é parte da vida democrática. O respeito à trajetória de um comunicador de 70 anos não pode significar silêncio diante de uma fala que fere direitos fundamentais. Ao contrário: a maturidade de quem viveu tanto deveria ser uma oportunidade de aprendizado público.

A democracia amadurece quando reconhece erros e corrige caminhos. Uma figura popular como Ratinho poderia, inclusive, transformar esse episódio em um gesto pedagógico, reconhecendo que o mundo mudou, que conceitos evoluíram e que o respeito às identidades humanas não diminui ninguém.

A deputada Erika Hilton representa hoje um fato histórico da política brasileira: a presença de pessoas trans em espaços institucionais de poder. Concordar ou discordar de suas posições políticas é absolutamente legítimo. Negar sua identidade, porém, não é debate político é violência simbólica.

Num país que ainda luta para construir uma cultura de respeito à diversidade, cada palavra pública importa. E quanto maior o microfone, maior deve ser a responsabilidade.

Por isso, a cobrança que se faz agora não é um ataque pessoal ao apresentador. É um chamado ético. Um pedido para que a comunicação pública no Brasil, especialmente aquela que chega a milhões de pessoas, não seja instrumento de exclusão, mas de convivência.

Porque, no fim das contas, a liberdade de expressão nunca deveria servir para negar a humanidade de ninguém.

Fabrício Correia é escritor, jornalista e apresentador de televisão. Professor universitário, esteve a frente da cátedra de Diversidade da UNISE-PR.

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