Foto: Reprodução

O tempo de Zuenir

Conheci Zuenir Ventura depois de ter lido alguns de seus livros, circunstância que torna diferente o encontro com um escritor, porque antes do homem chegam suas perguntas, sua maneira de observar o mundo e aquilo que escolheu guardar dele, de modo que, quando finalmente conversamos, já carregamos uma intimidade que o outro desconhece e que somente os livros são capazes de produzir.

Pensei nisso quase agora, ao ser comunicado pelo meu amigo, ex-presidente da Academia, Enrique Gianna, sobre sua morte, talvez porque Zuenir tenha pertencido a uma linhagem de intelectuais brasileiros para os quais jornalismo, literatura e História nunca foram territórios inteiramente separados, mas diferentes maneiras de enfrentar o presente antes que ele se acomodasse numa versão definitiva, e foi justamente nessa fronteira, entre aquilo que acabara de acontecer e o que ainda precisava ser compreendido, que sua escrita encontrou lugar.

“1968: O Ano que Não Terminou” me alcançou também pela minha formação em História, mas seria pouco tratá-lo apenas como documento de uma época, porque seu interesse maior está na percepção de que o passado não sobrevive somente nos grandes acontecimentos, mas na atmosfera que os cercam, nos medos, desejos, ingenuidades e contradições dos que viveram sem saber que um dia seriam personagens de um período estudado nos livros, como acontece conosco enquanto atravessamos o presente convencidos de que a História é sempre alguma coisa que aconteceu aos outros.

Mais tarde, “Cidade Partida” me colocou diante de uma questão ainda mais brasileira, essa proximidade quase obscena entre mundos que compartilham a mesma cidade sem verdadeiramente habitá-la juntos, e Zuenir entrou em Vigário Geral sem a pretensão de resolver por meio da escrita aquilo que séculos produziram, preferindo fazer o que um repórter deveria fazer antes de qualquer interpretação: permanecer o bastante para que as pessoas deixassem de ser personagens e recuperassem sua condição humana.

Quando passei a encontrá-lo, em idos de 2000 e conversamos algumas vezes, descobri algo que os livros apenas permitiam suspeitar, pois Zuenir possuía uma curiosidade sem afetação, dessas que não transformam o interlocutor em plateia, e escutava com a atenção de quem ainda admitia encontrar alguma coisa que não soubesse, qualidade particularmente rara entre homens que passaram décadas sendo procurados para explicar o país.

Guardo especialmente a lembrança de 2014, quando foi eleito para a Cadeira 32 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Ariano Suassuna, a quem eu tivera a honra de trazer para a Região Metropolitana do Vale do Paraíba, e lembro de cumprimentar Zuenir naquela ocasião sem imaginar que, tantos anos depois, aquele instante assumiria para mim outro significado, reunindo numa mesma cadeira dois homens que procuraram o Brasil por caminhos quase opostos, Ariano mergulhando nas permanências da cultura popular e Zuenir perseguindo o país enquanto ele acontecia.

Talvez seja essa imagem que melhor me acompanhe agora, porque entre Ariano e Zuenir cabem duas formas extraordinárias de interrogar o Brasil, uma buscando aquilo que resiste ao tempo e outra tentando compreender aquilo que o tempo acabara de modificar, enquanto eu, por uma dessas generosidades inexplicáveis da vida profissional, pude encontrar os dois e guardar de cada um não somente a obra, mas a presença.

Zuenir vinha de um jornalismo no qual a informação ainda não havia sido confundida com conhecimento, distinção que o nosso tempo tornou urgente, pois informar pode exigir alguns segundos, enquanto compreender depende de repertório, convivência, dúvida e demora, e talvez por isso sua maneira de trabalhar pareça hoje tão distante das redações submetidas à atualização incessante, às métricas e à obrigação de oferecer uma conclusão antes mesmo que os fatos tenham adquirido contorno.

Não convém idealizar aquele jornalismo, que possuía seus vícios, hierarquias e muitos silêncios, mas alguma coisa importante se perdeu quando a velocidade deixou de ser instrumento para se transformar em medida de valor, porque o repórter que sempre precisou  caminhar, esperar, retornar e confrontar versões desenvolvia uma relação com a realidade que nenhuma tela consegue reproduzir inteiramente hoje, não por deficiência tecnológica, mas porque certas verdades somente aparecem depois que alguém permanece.

A morte de Zuenir aos 95 anos encerra uma vida que atravessou transformações profundas do Brasil e da imprensa, embora me interesse menos fazer o inventário de seus feitos do que guardar aquilo que sua presença me ensinou sobre o ofício que também escolhi, especialmente a ideia, cada vez mais preciosa, de que o jornalista não precisa demonstrar que sabe tudo, pois sua dignidade talvez comece justamente quando reconhece aquilo que ainda precisa perguntar.

Zuenir volta para a estante, mas não será passado, porque o Brasil permanece diante de nós com suas antigas fraturas e suas novas urgências, enquanto aquela pergunta silenciosa que atravessou sua vida profissional continua sem resposta definitiva. Talvez seja esse o destino dos grandes repórteres: partir antes da última pergunta.

Fabrício Correia é escritor, historiador e jornalista. Preside a Academia Joseense de Letras, é membro da ANER – Associação Nacional dos Editores de Revistas e da UBE – União Brasileira de Escritores.

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