Existem vozes que deixam de ser apenas de quem fala e passam a pertencer, de algum modo, ao imaginário coletivo. Elas entram nas casas, atravessam as conversas de família, acompanham o silêncio do jantar e o barulho da manhã. A televisão criou esse fenômeno: uma relação silenciosa entre quem comunica e quem confia.
Agda Queiroz conhece esse lugar.
Durante anos, como jornalista, entrou nos lares brasileiros sob a égide da Rede Globo. Depois passou pela Band. Não foi presença ocasional. Foi presença constante, construída na rotina do público. O jornalismo cria esse vínculo invisível: uma voz se torna referência para milhares de pessoas que, muitas vezes sem perceber, passam a enxergar o mundo também por meio dela.
Por isso suas palavras têm peso.
Mais do que opinião individual, elas carregam influência. Quando uma jornalista com trajetória pública se manifesta, muitos escutam com atenção, alguns concordam, outros discordam, mas quase ninguém ignora. A autoridade construída ao longo de anos transforma qualquer frase em algo maior do que um comentário isolado.
Foi nesse contexto que surgiu sua crítica à presidência da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara dos Deputados.
Hoje a comissão é presidida pela deputada Erika Hilton, mulher trans, travesti, preta, eleita por São Paulo com votação expressiva. Sua chegada ao comando do colegiado tornou-se um fato histórico: pela primeira vez uma mulher trans ocupa esse espaço dentro do Congresso Nacional.
Esse fato não é apenas institucional. É simbólico.
Erika Hilton construiu sua trajetória política enfrentando preconceito, violência simbólica e exclusão. Sua presença naquele espaço traz para dentro do debate público uma experiência que durante décadas foi empurrada para a margem da sociedade.
Ao afirmar que a comissão não deveria ser presidida por alguém “biologicamente masculino”, Agda talvez tenha imaginado estar protegendo um território conquistado por mulheres ao longo de décadas de luta. Esse sentimento de proteção possui origem compreensível. A história feminina registra séculos de silenciamento e invisibilidade.
Mas a realidade humana raramente cabe em definições rígidas.
Quando a política reduz a identidade feminina apenas a um critério biológico, corre o risco de estreitar aquilo que deveria ampliar. A experiência de ser mulher não se limita à capacidade de gestar. Muitas mulheres não gestam, não podem gestar ou simplesmente não desejam gestar, e nem por isso deixam de ser mulheres.
A vida humana sempre ultrapassou fronteiras simples.
Erika Hilton não ocupa aquele espaço contra as mulheres. Ela ocupa aquele espaço dentro de uma história mais ampla de reconhecimento e dignidade. Sua presença lembra ao país que violência de gênero assume muitas formas e que o desprezo social não pergunta documentos antes de atingir alguém.
O equívoco de Agda não precisa produzir inimigos, mas deve nos levar a reflexão.
Palavras vindas de quem durante anos interpretou o país precisam carregar atenção redobrada. Não por medo do debate, mas por respeito ao alcance que essas palavras possuem. Uma frase pública pode aproximar pessoas ou aprofundar distâncias.
O Brasil vive um tempo em que divergências rapidamente se transformam em trincheiras. Cada grupo passa a falar apenas para quem pensa igual. Nesse ambiente, qualquer conversa se torna impossível.
Talvez o gesto mais necessário agora seja outro.
Reconhecer que a defesa das mulheres cresce quando se torna mais ampla, não mais estreita. Cresce quando reconhece diferentes experiências dentro da própria condição feminina. Cresce quando escolhe somar trajetórias em vez de criar novos muros.
Erika Hilton representa uma dessas trajetórias.
Agda Queiroz representa outra: a jornalista que durante anos falou para milhões de brasileiros e ajudou a formar opinião pública. Sua voz continua relevante exatamente por causa dessa história.
E talvez justamente por isso exista um convite silencioso neste episódio.
Uma sociedade madura não cresce quando decide quem pode ou não existir dentro de uma causa. Ela cresce quando aprende a ampliar o círculo de dignidade.
No fim, todas as lutas por justiça caminham na mesma direção: fazer com que mais pessoas sejam vistas como plenamente humanas.
Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário com especialização em Acessibilidade, Diversidade e Inclusão. Coordenou a cátedra de Diversidade dos cursos de pós-graduação da UNISE-PR.

