Se a arte, como dizia Oscar Wilde no prefácio de “O retrato de Dorian Gray”, é absolutamente inútil, é justamente porque ela é livre — livre de convenções, de servidões ideológicas, de correntes políticas, partidárias. Quando uma obra se submete a qualquer doutrina que lhe dite o que pode ou não expressar, o que deve ou não emocionar, ela deixa de ser arte e se torna propaganda. É esse o horizonte sombrio que se desenha em São José dos Campos com a atuação parlamentar do vereador Thomaz Henrique (PL), um entusiasta do bolsonarismo mais reacionário, que parece confundir política cultural com campo de guerra ideológica.
Thomaz não se limita a fazer oposição: ele encarna um tipo de censura disfarçada de zelo moral, como se todo artista que não rezasse por sua cartilha fosse um inimigo público. Primeiro, tentou barrar o show da banda Ira! — um dos maiores nomes do rock brasileiro — na Arena Farmaconde em apresentação privada. Depois, voltou sua artilharia contra a própria prefeitura e a AFAC por trazer Ivan Lins, um dos mais importantes compositores da música popular brasileira, para um espetáculo gratuito. O pecado de Ivan? Ter declarado voto em Lula, ter feito o “L”.
O vereador não esconde: para ele, arte boa é arte que cala. Cultura válida é a que se ajoelha. Ele não entende — ou finge não entender — que o fomento cultural não é uma premiação por alinhamento partidário, mas política pública. Não é sobre aplauso político, é sobre acesso, diversidade, liberdade de expressão. É essa liberdade que Thomaz Henrique combate: quando ataca shows, quando persegue artistas, quando se opõe ao pluralismo de ideias, quando sugere a retirada de livros de bibliotecas públicas— como já fez em outras ocasiões, sempre com o mesmo tom moralista e punitivista.
O que ele propõe, no fundo, é a domesticação da cultura. Quer transformá-la em cartilha, em extensão do palanque, em instrumento de combate político. Não percebe que, ao fazer isso, sufoca a própria cidade que diz defender. São José dos Campos não é trincheira de guerra. É um território pulsante, habitado por artistas, estudantes, leitores, músicos, produtores e espectadores que querem mais que silêncio. Querem vozes, presenças, diversidade cultural.
Thomaz Henrique é o símbolo de um tempo em que o medo tenta ocupar o lugar do diálogo. Uma figura que exagera na caricatura e esvazia o conteúdo. Não aceita que a arte é, por definição, desobediente. E que o artista — seja ele Ivan Lins, o Ira! ou um poeta anônimo do Vale do Paraíba — não nasceu para obedecer político nenhum.
Quando um vereador se julga no direito de dizer quem pode ou não subir ao palco, não está exercendo mandato. Está invadindo a plateia com tochas acesas, pronto para queimar ideias.
E é exatamente contra isso que a cultura precisa continuar resistindo: contra os inquisidores de terno e gravata, que falam em nome da família, mas agem como censores de um livro mal escrito.
Fabrício Correia é escritor, crítico de cinema, jornalista, historiador e professor universitário. Presidiu a Academia Joseense de Letras e integra a União Brasileira de Escritores – UBE e a Academia Brasileira de Cinema. Especialista em Musicoterapia e Vibroacústica. É CEO da Kocmoc New Future, responsável pela agência de notícias, “Conversa de Bastidores” e o portal de entretenimento “Viva Noite”. Apresenta o programa “Vale Night” na TH+ SBT.