Foto: Reprodução

Sarah Mullally é confirmada como arcebispa de Canterbury e faz história na Igreja da Inglaterra

A clériga Sarah Mullally, de 63 anos, foi confirmada nesta quarta-feira (28) como a nova arcebispa de Canterbury, o posto mais alto da Igreja da Inglaterra. A decisão a transforma na primeira mulher a ocupar a função em quase cinco séculos de história da instituição, um marco simbólico para uma igreja que, até poucas décadas atrás, não permitia sequer a ordenação feminina.

A confirmação ocorreu durante uma cerimônia na Catedral de São Paulo, em Londres, etapa decisiva de um processo de nomeação que se estendeu por meses. A formalização final está prevista para 25 de março, na Catedral de Canterbury, quando Mullally deverá ser oficialmente empossada e assumir de maneira plena a liderança espiritual da igreja.

Sua trajetória foge ao padrão tradicional do alto clero anglicano. Antes de ingressar na vida religiosa, Mullally atuou como enfermeira, com especialização no cuidado de pacientes com câncer. Casada e mãe de dois filhos, ela chega ao cargo em um período de forte pressão por renovação institucional e reconstrução de credibilidade.

A nova arcebispa sucede Justin Welby, que deixou o posto em novembro de 2024 após enfrentar críticas relacionadas à condução de um caso envolvendo alegações de abuso físico e sexual atribuídas a um voluntário em um acampamento de verão ligado à Igreja. Welby foi questionado por não ter comunicado as autoridades policiais sobre as denúncias, o que intensificou cobranças por maior transparência e responsabilidade dentro da instituição.

A escolha de Mullally foi feita por uma comissão de 17 integrantes, composta por clérigos e leigos, e posteriormente confirmada pelo rei Charles III, que ocupa o cargo de líder supremo da Igreja da Inglaterra. O processo reflete a estrutura singular da instituição, que combina tradição religiosa e vínculo formal com a monarquia britânica.

A nomeação, no entanto, não é vista de forma unânime dentro da Comunhão Anglicana, que reúne cerca de 100 milhões de fiéis em diferentes países. O bloco vive há anos uma divisão acentuada em torno de temas como o papel das mulheres na liderança religiosa e o tratamento dado às pessoas LGBT. A Gafcon, organização internacional que congrega anglicanos conservadores, classificou a escolha como controversa. O grupo defende que o episcopado seja restrito a homens e critica posições associadas a Mullally em debates recentes, incluindo discussões sobre a bênção de uniões entre pessoas do mesmo sexo.

O avanço feminino na hierarquia anglicana é recente. A Igreja da Inglaterra ordenou suas primeiras mulheres sacerdotes em 1994 e reconheceu sua primeira bispa apenas em 2015. A chegada de Mullally a Canterbury amplia esse movimento histórico, mas também evidencia as fraturas internas que acompanham cada mudança. Ela assume a liderança em um momento delicado, equilibrando expectativas por reformas, demandas por justiça em relação a escândalos do passado e a difícil tarefa de manter unida uma comunhão religiosa global cada vez mais dividida.

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