A reviravolta veio em poucas horas e mudou o eixo de controle da apuração. Depois de determinar que o material apreendido na operação que mira o Banco Master e fundos ligados ao mercado financeiro fosse lacrado e mantido sob custódia no Supremo Tribunal Federal, o ministro Dias Toffoli reconsiderou a própria ordem e decidiu que tudo o que foi recolhido nesta quarta-feira (14) deve ser encaminhado à Procuradoria-Geral da República. Na prática, o ministro retirou o conjunto probatório do circuito imediato da Polícia Federal e colocou a análise sob o guarda-chuva do Ministério Público, que é o titular da ação penal e, portanto, a instituição responsável por formar convicção sobre denúncia.
A decisão ocorre após manifestação do procurador-geral Paulo Gonet, apresentada ao STF ainda hoje. Num primeiro momento, a posição indicada era a de que o material permanecesse com a PF. Em seguida, porém, o entendimento mudou: a PGR passou a solicitar que os itens fossem remetidos ao Ministério Público Federal para que a extração de dados e a perícia dos dispositivos apreendidos fossem conduzidas sob sua supervisão. Toffoli acolheu esse pedido e fixou, por despacho, que a PF faça o encaminhamento do que foi apreendido.
O pano de fundo é uma disputa de ritmo e de competência. A Polícia Federal havia pressionado por uma providência imediata: queria autorização para extrair rapidamente os dados de aparelhos eletrônicos, especialmente celulares, num tipo de perícia em que tempo e integridade do conteúdo importam. O diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, formalizou a solicitação para que a PF pudesse realizar a extração. A primeira ordem de Toffoli, ao centralizar e lacrar o material no STF, foi lida por investigadores como um risco de travamento operacional, porque perícias digitais dependem de acesso contínuo, estrutura técnica e procedimentos padronizados de cadeia de custódia. E não é usual, em operações policiais, que o tribunal mantenha sob sua guarda o conjunto de provas materiais recém-apreendidas.
Ao reformular a medida, Toffoli fundamentou a escolha num argumento institucional: se o Ministério Público é quem pode apresentar uma eventual denúncia, é também quem deve, desde já, “apreciar” o material colhido para formar a opinião ministerial sobre materialidade e autoria. O ministro ainda definiu protocolos de preservação para os dispositivos eletrônicos: determinou que sejam mantidos carregados e desconectados tanto da internet quanto da rede de telefonia, como forma de proteger o conteúdo até a extração e o periciamento pela autoridade encarregada.
A investigação, segundo o próprio Toffoli, descreve um cenário mais amplo do que uma irregularidade pontual. Ele registra que o inquérito teria apontado a utilização de fundos como engrenagens para gestão fraudulenta, desvio de valores, lavagem de dinheiro e exploração sistemática de vulnerabilidades do mercado de capitais, além de falhas no sistema de regulação e fiscalização. O ministro também ressaltou o “êxito” da operação realizada hoje, o que confere ao despacho um tom de validação da diligência, ao mesmo tempo em que reposiciona quem passa a segurar, com prioridade, o conteúdo bruto colhido.
A operação desta quarta mirou o controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, além de familiares e pessoas do seu entorno, com mandados cumpridos em São Paulo e em outros estados. Entre as medidas autorizadas, houve também bloqueio e sequestro de bens e valores em montante bilionário. Na lista de apreensões, apareceram itens de alto valor e materiais típicos de busca e apreensão financeira, que agora seguem para triagem sob comando da PGR.
Do ponto de vista prático, a decisão estabelece um novo fluxo: a PF continua sendo a força policial que executou as diligências e que poderá ser acionada para novas etapas, mas a leitura inicial do acervo apreendido, especialmente no que diz respeito a dados eletrônicos e documentação sensível, passa a ser conduzida no âmbito do Ministério Público. Isso pode significar mais centralidade do MP na seleção do que será periciado primeiro, no recorte do que vira prova e na estratégia de responsabilização, ainda que a PF mantenha o papel essencial de investigação técnica e cumprimento de medidas.
A defesa de Vorcaro informou que o empresário colabora com as autoridades e tem interesse no esclarecimento integral dos fatos. Já para o caso, o passo seguinte é decisivo: a extração e a análise do conteúdo digital. É ali, no miolo dos celulares, computadores, mensagens, registros e documentos, que a investigação tende a buscar a narrativa probatória capaz de sustentar, ou não, a versão de gestão fraudulenta, desvio e lavagem, e a eventual conexão entre estruturas financeiras, fundos e decisões tomadas no entorno do banco.
Em resumo, o dia terminou com uma mudança de chave: o STF deixou de ser o cofre físico das apreensões e entregou a guarda e a condução analítica à PGR. Ao recuar do lacre no Supremo e optar pelo Ministério Público, Toffoli tenta equilibrar cadeia de custódia, controle institucional e celeridade, mas também fixa um recado nítido: a formação do caso, a partir de agora, será construída com a PGR no centro da mesa.

