A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, saiu das urnas neste domingo (8) com uma vitória considerada histórica e com efeitos imediatos dentro e fora do país. A coalizão liderada por ela conquistou uma vantagem ampla na Câmara baixa, abrindo caminho para uma agenda que combina cortes de impostos, endurecimento na área de segurança e uma postura mais afirmativa diante da China — conjunto que já provoca reações de investidores e de potências estrangeiras.
Pelos números divulgados após o fechamento das urnas, o Partido Liberal Democrático (PLD), que há décadas é a principal força política do Japão, alcançou uma bancada expressiva e ultrapassou com folga a marca necessária para maioria. Com o aliado Partido da Inovação do Japão (Ishin), a coalizão passou a trabalhar com uma maioria qualificada de dois terços, o que pode facilitar a tramitação de projetos ao reduzir a dependência da Câmara alta, onde o governo não tem domínio.
A eleição antecipada foi convocada por Takaichi poucos meses após ela assumir a liderança do PLD, em um movimento para capitalizar a popularidade e reordenar o tabuleiro político. O partido havia sofrido reveses recentes e chegou a perder controle das duas Casas do Parlamento em eleições anteriores. Agora, com o resultado, o governo volta fortalecido — e com margem para acelerar propostas que, até aqui, enfrentavam resistência.
Promessa de corte de imposto vira alerta nos mercados
Entre as bandeiras de campanha, Takaichi defendeu reduzir o imposto sobre vendas, incluindo a suspensão da alíquota de 8% aplicada a alimentos, como forma de aliviar o custo de vida das famílias. A proposta, porém, gerou dúvidas no mercado sobre como o país financiaria o plano, especialmente por causa do peso da dívida pública japonesa.
Após a votação, a primeira-ministra indicou que pretende acelerar a análise do tema, mas afirmou que o debate terá como eixo a sustentabilidade fiscal — sinalizando que o governo tentará equilibrar o apelo popular da medida com a pressão por responsabilidade nas contas públicas.
Popularidade, “Sanae-mania” e apelo entre jovens
A campanha também foi marcada por um fenômeno de popularidade, com forte engajamento nas redes e maior aproximação com o eleitorado jovem. No noticiário local, a imagem pessoal da premiê ganhou contornos de “mania” — com itens associados a ela, como acessórios usados no Parlamento, virando objeto de procura. Em depoimentos colhidos em locais de votação, eleitores destacaram a percepção de que Takaichi “imprime direção” e passa a sensação de unidade nacional.
Política de segurança e choque com Pequim
No campo geopolítico, a vitória amplia o espaço para uma agenda de segurança mais assertiva. Pouco depois de assumir, Takaichi já havia elevado o tom ao discutir, publicamente, como Tóquio poderia reagir a um eventual ataque chinês contra Taiwan, tema altamente sensível para Pequim. A sinalização foi lida como o movimento mais duro em mais de uma década, e tende a manter a relação bilateral sob tensão, com possibilidade de novas respostas diplomáticas e econômicas.
Apoio de Trump entra na disputa de narrativas
Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump também entrou no roteiro da eleição japonesa ao declarar “apoio total” a Takaichi e informar que pretende recebê-la na Casa Branca. O gesto foi interpretado como tentativa de reforçar alianças estratégicas no Indo-Pacífico, ao mesmo tempo em que amplia a atenção internacional sobre os próximos passos do governo japonês.
Com um Parlamento mais favorável e capital político renovado, Takaichi inicia a nova etapa sob holofotes: no curto prazo, terá de provar que consegue conciliar alívio tributário e rigor fiscal; no plano externo, a rota escolhida pode redefinir o equilíbrio regional entre Tóquio, Washington e Pequim.

